Abbey Road

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Este é o último álbum gravado pelos Beatles e seu penúltimo lançamento. Isso porque Let it Be foi gravado em janeiro de 1969 e lançado em 6 (UK) e 11 (US) de março de 1970. O Abbey Road (que quase se chamou Everest, marca de cigarro usada por um dos técnicos que fumava sem parar) teve as gravações finalizadas em 25 de agosto de 1969 e foi lançado em 26 de setembro (UK) e 1 de outubro (US) de 1969. Portanto, completa 40 anos em 2009. Dos tempos selvagens de Hamburgo e da loucura da beatlemania, o salto foi grande, e o que já vinha ocorrendo desde Rubber Soul, o álbum mostra muita maturidade musical e canções finamente elaboradas e executadas, que apesar da imensa tensão existente, não tirava o brilho das músicas, que continuavam “afiadas e ousadas”. As discordâncias foram potencializadas por várias ocorrências. Um acidente de carro na Escócia com John e Yoko grávida, tiraram John de várias sessões de gravação. Mas quando voltou para o estúdio estava alegre e de bom humor. 

Abbey Road - John e Paul

Mas para piorar o clima, Yoko, em sua gravidez delicada (perderia o bebê entre 9/12 de outubro), pede para ficar numa cama dentro do estúdio, onde ficava tricotando e dando palpites. Muita tensão. Linda, esposa de Paul, estava para dar à luz (Mary nasceu em 28 de agosto). Ambos Paul e John passavam a ter opiniões diametralmente opostas. Nunca estavam juntos quando viajavam.

Abbey Road - Yoko

 Em 31 de agosto, George e Pat, Ringo e Maureen, John e Yoko vão ao Festival da Ilha de Wight (200.000 pessoas), para ouvir Bob Dylan. Ok, Paul havia acabado de ter uma filha. A situação pós morte de Brian Epstein, de Beatles – Plastic Ono Band – Phil Spector/George Martin – Allen Klein – John Eastman – Apple – Nems – Northern Songs, mostrava claramente o grau de disputas por interesses e lutas por poder. Após o fim oficial da banda, Allen Klein, o empresário substituto, foi parar na justiça por ter roubado £ 5.000.000 dos Beatles. You Never Give me Your Money foi gravada logo após o anúncio de John, George e Ringo (também já cansados dos artifícios pop. V. I Want You, mais bluesy, mais adulto)  da intenção de contratar Allen Klein para cuidar das finanças do grupo, coisa que abalou Paul que lutava para emplacar o escritório da família de Linda Eastman (aqui cabe dizer que Mick Jagger já os havia alertado contra Klein). Essa música satiriza esse episódio e as dificuldades financeiras geradas pelos desacertos contínuos de gerenciamento do produto do século. Segundo Ian MacDonald (in “Revolution in the Head”, pg 281), essa canção é a percepção de McCartney, um ano antes, do “Dream is Over” citado por John. Mas é certo que a escolha de Allen Klein, por votação (3 votos a 1), foi a gota d’água para a separação efetiva da banda. Mais tarde, John conscientizou-se da besteira que foi a contratação de Klein, e até escreveu uma música dirigida à Klein, Steel and Glass, do álbum “Walls and Bridges”, de 1974 (há quem pense que é uma canção auto-biográfica, por causa de uma frase : “Your mother left you when you were young…”, que como todos sabem, aconteceu sim em sua vida). Ainda antes do lançamento de Abbey Road, John convida seus amigos Klaus Voorman (ainda dos tempos de  Hamburg. Montou a banda The Manfred Mann, e simplesmente desenhou a capa do Revolver), Eric Clapton e Allan White, para fazerem parte de uma banda com ele e Yoko, a Plastic Ono Band, para tocar em Toronto, Canadá. Logo depois, John avisa que está se retirando da banda, mas, por causa do momento complexo e delicado da Apple, foi aconselhado a não tornar público esse fato.

Abbey Road apple, bolacha

A logomarca da Apple foi inspirada na obra do pintor surrealista belga René Magritte (1898 – 1967). Para mim faz sentido a obra de um artista modernista ser o símbolo do principal ícone dos 60, na era pós-moderna. Como isso aconteceu ? Paul MacCartney contou em entrevista que havia dito ao seu amigo e galerista Robert Fraser, que amava Magritte e seu grande senso de humor. Um dia, Robert deixou sobre a mesa de Paul (que estava no jardim filmando alguns takes junto com os outros e não quis incomodá-los), uma pequena obra que era uma maçã com uma frase escrita “Au revoir”.

Le jeu de mourre , Magritte

“Le jeu de mourre”,  título da obra, é um óleo sobre tela de 1966, 30×40 cm, inexplicavelmente barata para a época. Acharam que a obra tinha um conceito muito interessante e tornou-se inspiração para o logo. Então decidiram cortá-la na metade para o lado B. Apareceu pela 1ª vez no Sgt. Pepper’s, de 1967, ano da morte de Magritte.

George Harrison, que se firma como compositor de primeira linha a partir desse disco (mas já tinha feito algo como Taxman, para o álbum ‘Revolver’, 1966), comenta na época de seu lançamento: ” Eu não consigo ter uma visão completa de ‘Abbey Road’. Com ‘Pepper’, e até o ‘Álbum Branco’, eu tive uma imagem do começo ao fim do produto, mas nesse disco eu ainda estou perplexo. Acho que é parecido um pouco com ‘Revolver’, não sei direito. Não consigo realmente vê-lo como uma entidade completa”. Muitos consideram esse álbum como o melhor da banda.

Abbey Road studios 

Foi o 1º a utilizar 8 canais e uma nova ferramenta, o sintetizador Moog,  (George trouxe da Califórnia em 1968) que seria utilizado largamente por bandas de rock progressivo nos anos 70. O álbum foi para o Top 1 uma semana depois de ser lançado e lá ficou por 18 semanas. No ranking da Rolling Stone, aparece como  Top 14  dos “Melhores Álbuns de Todos os Tempos”.

AbbeyRoad2LabelsBSideDecca

Uma banda de maçã

Realmente o álbum tem momentos brilhantes como Come Together, música de maior impacto, composta por John a pedido de Timothy Leary, que a usaria em sua campanha para governador da Califórnia, contra Ronald Reagan. Não usou. Reagan contra atacaria dizendo que seu adversário era usuário de drogas, etc. Ian MacDonald, em seu “Revolution in the Head ” diz, em Come Together, que “o preâmbulo pessoal é lançado na esfera pública e elevado ao nível de (anti) ideologia: uma chamada para libertar a imaginação e, pela montagem de uma linguagem livre, desintrincheirar da rigidez emocional e política. A canção continua um tema consistente no trabalho de Lennon, desde I Am The Walrus  – em parte originada em seu LSD e em parte embebida na atmosfera contracultural da anarquia anti-elitista como definida por eruditos como Marshall McLuhan, Arthur Janov, R.D. Laing e Herbert Marcuse. O arquétipo de anti-políticas contracultural como apresentadas em Come Together estava no espírito rebelde da sabedoria hippie: o guru atordoante/shamã espelhado em Timothy Leary, Ken Kesey, o personagem fictício Don Juan de Carlos Castañeda e figuras como o Mulá Nasruddin e os mestres Zen do Oriente”. O lado 1 finaliza com a minha preferida I Want You (She’s So Heavy).

É uma canção cuja frase solo é blues com John, voz e  guitarra no mesmo tom. E o Moog de George, aquele efeito de ventania no final da música. Nenhuma música dos Beatles carrega um teor emocional tão extremo quanto essa. Tem também as canções de George, e ainda a maravilhosa Because, uma das mais interessantes do disco. E o lindo Long Medley no lado 2, músicas de John e Paul, todas juntas desde You Never Give Your Money, que parece ser duas músicas, diferentes uma da outra. Depois vem Sun King (escrita por John e que originalmente chamou-a de Los Paranois), passando  por duas músicas escritas na India, Mean Mr. Mustard e Polytheme Pam, depois entra She Came In Through the Bathroom Window, Golden Slumbers e Carry that Weight (outra provocação a Allen Klein) onde Ringo faz um solo de bateria seguido de solos de guitarra dos outros 3, que se cruzam num crescente até The End. Fim.

Vinte segundos se passam para entrar Her Majesty e fechar o disco e também uma era. A banda só acabaria oficialmente em 10 de abril de 1970. Sobre isso, Mário César Carvalho, escreveu em 1 de dezembro de 2001 (Folha de São Paulo, Ilustrada) : “Os Beatles ajudaram a criar um novo tipo de mercado para a música pop: aquela em que a mística da contestação vale tanto quanto o som. Os Rolling Stones só acrescentaram um viés mais assustador, como a propaganda que faziam dos negros marxistas dos Panteras Negras, porque tinham que cumprir um papel diferente: deveriam parecer mais perversos, mais sexualizados, mais drogados. Justiça seja feita: foram os próprios Beatles que inauguraram a cena de expor o mal-estar causado pelo comércio do que julgavam ser contestação. A troca do terninho mod por cabelos e barbas desgrenhados é o símbolo mais óbvio desse mal-estar. O subtexto da mudança visual é mais ou menos óbvio: já que me transformaram em mercadoria, a ofensa suprema para hippies e revolucionários românticos, você vai ter de me engolir do jeito mais insuportável possível. O fim dos Beatles foi o fim desse jogo”.

A capa

beatles_-_abbey_road 

A capa de Abbey Road foi idéia de Paul e o design gráfico do diretor de arte da Apple, o Kosh. A foto é de Iain Mcmillan, e levou cerca de 10 minutos para ser feita, em 8 de agosto de 1969, as 10 : 35 hs am. É uma das imagens mais famosas de todos os tempos e uma das mais copiadas. Se isso é verdade, como pode uma imagem tão simples, tranquila e até banal em um lindo dia de verão – como no filme “Veludo Azul” (1986, David Lynch) que começa mostrando o cotidiano de uma simpática e pacata cidadezinha, e como sabemos, não é bem assim. NADA É O QUE PARECE. Ou como em “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll (que é citado por Lennon em “I am the Walrus”) – conter tantos sinais e significados e alimentar uma nova onda de notícias pelo que ficou conhecido como os rumores de “Paul está Morto”. Esses rumores eram baseados em sinais abundantes e sutis que começaram a aparecer no álbum “Collection of Beatles Oldies”, lançado apenas na Inglaterra em 10 de dezembro de 1966. Quem viveu nessa época se lembra da onda de boatos. Acontece que a suposta morte de Paul ocorreu em 9 de novembro de 1966, decapitado em um acidente de trânsito com seu Aston Martin. “He blew his mind into a car. He didn’t notice that the lights have changed…” (A Day in the Life, Sgt. Peppers, 1967). Ou ainda, no mesmo disco, “Nothing to do to save his life call his wife in…” (Good Morning, Good Morning). O nº 9 é recorrente em músicas dos Beatles ou de John Lennon (Revolution nº 9,  Number 9 Dream). Músicas tocadas de trás para frente, capas, livretos dos álbuns, tudo é normal até que os detetives de sinais mostram para onde você tem de olhar e aí não dá para não acreditar numa conspiração muito bem articulada, porque não é possível que tanta coisa se agrupe ao acaso, sinais tão sofisticados que pululam por toda a discografia dos Beatles, a partir do álbum citado acima. Sgt. Pepper é abundante nesses sinais, e para citar apenas um, se você colocar um espelho na horizontal encostado na metade da palavra Lonely Hearts no centro da bateria da banda, aparecerá a data da morte de Paul. Abbey Road foi o estopim que desencadeou ainda mais a lenda urbana “Paul is Dead”.  E como é de Abbey Road que estamos falando… Bom, foi a partir daquela foto que foi dito que era uma procissão, liderada por John, de branco, como o clérigo. Ringo, de preto, é o agente funerário. Paul, o cadáver, o único descalço (na U.K. os mortos são enterrados descalços) e o único em descompasso em relação aos outros. E seus olhos estão fechados. Havia o rumor de que era um sósia, porque segurava o cigarro (coffin nail) com a mão direita e todos sabem que Paul é canhoto. Ao fundo, alinhado com Paul, se vê um carro, como se tivesse passado por ele e seguido em frente. E George, com jeans (roupa de trabalho) é o coveiro.

Abbey Road fusca 1

Atrás de George tem um fusca (beetle), que alguém disse que era do John, mas isso não deve ser verdade, porque consta que a produção queria retirar o carro do ângulo de visão da foto, e como se sabe, não conseguiu. O dono do carro era um jovem sueco que estava de férias, e seu carro ficou para a posteridade.

Abbey Road fusca detalhe

Como se vê na foto, sua placa é “28IF” (IF = SE), sugerindo que teria 28 anos SE estivesse vivo. Na verdade Paul tinha 27 anos na época. Mas em algumas culturas, especialmente as orientais (que eles frequentavam), a idade é contada a partir da concepção. Por esse ângulo ele teria 28 anos SE estivesse vivo. Também se vê as letras “LMW”, que pode-se interpretar como “Linda McCartney Weeps” (Linda McCartney Chora). Ou, “Linda McCartney Viúva” (Widow).

abbeypaul

 No lado direito da via tem uma van da polícia estacionada, como fazem sempre no atendimento de alguma ocorrência e permanecem parados no local. O homem em pé na calçada é um turista americano que só ficou sabendo que saiu na capa do disco muitos anos depois. 

AbbeyRoadBackCover

Na contra capa do álbum, à esquerda da palavra Beatles, tem 8 pontos que conectados, formam o nº 3 e então se lê 3 Beatles. À direita, uma estranha sombra forma uma caveira fantasmagórica. Há também uma rachadura no muro que corta o S de Beatles.

abbey3

 Estranha também é a imagem de um pênis que atravessa a capa em diagonal a partir da base esquerda (pode ter algo a ver com a frase “We gonna fuck you like supermen”, no final da última faixa do Sgt. Peppers, girando o disco ao contrário). A mulher passando é supostamente Jane Asher, a namorada de Paul na época do acidente que o ‘matou’, e que teria sido paga em troca de seu silêncio sobre o assunto. E se olhar para o cotovelo dela, de uma certa distância, poderá ver um suposto perfil de Paul. Ou algo do tipo. Em Come Together a linha “One and one and one is three…” sugere que há 3 beatles em vez de 4. É uma viagem.

Abbey Road - Fusca

O fusca da capa foi vendido em 1986 em um leilão por US$ 23.000, e hoje pertence ao Museu da Volkswagen, na Alemanha.

Em 9.09.09, uma data única que não se repetirá, a Apple e a EMI lançarão 2 caixas com todos os CDs da banda, remasterizados, em estéreo e MONO, com DVDs (documentários), libretos e fotos produzidos especialmente para esse lançamento.

Abbey Road - Bateria Beatles

Para quem quiser conhecer outras pistas :

The Michigan Daily, 14 oct 1969, v. McCartney Dead: New evidence brought to light

www.folha.uol.com.br / www.mensagemsubliminar.com.br / www.thebeatles.com.br

Webcam 24 hs em Abbey Road (cortesia do leitor Douglas querubim): www.webviews.co.uk/network/camera/england/london/abbeyroadbeatlescam.html

5 Respostas to “Abbey Road”

  1. Solon Says:

    Cara, seu blog é incrível. Sou apaixonado pelos anos 60 e principalmente pelos Beatles.
    Parabéns!

  2. Guto Leite Says:

    Olá Edi aqui é o Guto violinista filho da Rê!!

    Essa foi a primeira vez que acessei seu blog e confesso que ele me prendeu por três horas!!! Foi ótimo eu consegui aprofundar meus conhecimentos da literatura do Rock com o post de Abbey Road!! Ainda mais que esse é meus album favorito dos Beatles(no momento..)…..A inserção dos vídeos foi fantastica pois complementa os textos, transportando o internauta para verdadeira essência da época em que o disco foi gravado,além de possibilitar entender melhor o contexto das músicas e os meddleys insanos….esses mitos ainda aumentam toda Beatlemagia……

    bom eh isso…forte abraço

    Guto-Mucugê-Chapada Diamantina-Chapada Net

    • Jorge Haroldo Says:

      Faltou dar destaque a “Something”: uma canção que é a segunda mais regravada dos beatles não pode ser, junto com “Here Comes the Sun” – outra expressão do talento imensurável de Harrison – destacada apenas como “as canções do George”.

  3. Jorge Haroldo Says:

    Você não acha um exagero escrever o tanto que você escreveu sobre “Paul is dead”? E não falou nada de “Something” e Octupus Garden? Tem alguma coisa errada aí, hein?

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