Bossa Nova, Beatles…

Bossa Nova e Beatles: o que tem a ver uma coisa com a outra ? Nada. A não ser o fato de que essas ondas renovadoras começaram muito próximas uma da outra, se considerarmos as pré fases dos Beatles. Até poderia acrescentar que “Please, Please, me” (Lennon-McCartney) gira em torno de uma nota só, como “Samba de uma Nota Só” (Newton Mendonça-Tom Jobim). E não se preocupem. Esse post não pretende abordar os inúmeros títulos tipo “Bossa Nova – Tributo aos Beatles”. Em 1959, com o Rock’n’Roll em declínio, seus principais heróis fora de combate (v. o post “No começo“, outubro, 2007), e o Jazz sendo o principal motor de renovação (“Kind of Blue“, Miles Davis, 1959), foi lançado o álbum “Chega de Saudade” (o início da Bossa Nova é considerado agosto de 1958 com o compacto contendo “Chega de Saudade” e “Bim Bom”), de João Gilberto, um marco do movimento. As regras estavam sendo quebradas.

Em 1960, Jazz e Bossa Nova emergiam como as principais correntes e se auto influenciavam. Bob Dylan estava apenas iniciando uma trajetória que o transformou em uma das maiores influências da década, mas poderia dizer, do século XX. Na Inglaterra, o rock que dominaria o mundo ainda estava em fase embrionária. Muitos concordam em que a década de 60 começou em 1962 e foi até 1972. A canção “Desafinado” (Tom Jobim / Newton Mendonça), em versão instrumental de Stan Getz (sax) e Charlie Byrd (guitarra) em 1962, iniciou, com seu grande sucesso, o que poderíamos muito bem chamar de “Brazilian Invasion”, começando pelo Carnegie Hall, New York (Festival de Bossa Nova). Quer dizer, quando Bob Dylan estava começando a fazer algo diferente* em 1961, e os Beatles prestes a completar a metamorfose de crisálida em borboleta, a música que bombava no mundo era a Bossa Nova. Artistas como Ella Fizgerald, Miles Davis, Sarah Vaughan, Herbie Mann, Charlie Byrd, Oscar Peterson, Bill Evans, Coleman Hawkins Cannonball Addeley e Gerry Mulligan, gravaram sucessos da Bossa Nova.

Astrud

Stan e João

Frank Sinatra e Tom Jobim fizeram um dueto gravado em disco, em 1967. Após 1965, considerado o ano inicial do que ficou denominado MPB, a Bossa Nova continuaria influenciando artistas, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, Novos Baianos (“Acabou Chorare”, 1972) e tendências como o beije sound  dos anos 80, Style Council e Everything But The Girl. Ou no Brock de Blitz, Lobão e Cazuza. E repaginações mundo afora. Os Beatles romperiam barreiras musicais, culturais e mercadológicas sem precedentes, influenciando a tudo e a todos. Mas acho pertinente acrescentar que “Garota de Ipanema” (Tom Jobim/Vinícius de Moraes), na voz de Astrud Gilberto, foi a 2ª música mais tocada do século 20, ficando atrás apenas de “Yesterday”. Dos Beatles.

Esse texto parece contradizer o que foi escrito em “No Começo”, mas era a ótica de um garoto de 13 anos bem no início da década. Tudo certo com discos maravilhosos de Ray Charles, Frank Sinatra, Nat King Cole, as grandes orquestras (Benny Goodman, Artie Shaw, Glenn Miller, Tommy Dorsey) que ouvia em casa. Mais as influências de minha irmã, como por exemplo, Johnny Ray, Nick Savoia – carioca, gravou um compacto com “Cry” e “Mack the Knife”, ambas inesquecíveis. Paul Anka, Ronnie Cord, Sérgio Murilo, Connie Francis, etc. Na privacidade do meu quarto ouvia Paul Anka, Cliff Richards, Miltinho, Maysa, Françoise Hardy, Sylvie Vartan, Agostinho dos Santos, João Gilberto (Chega de Saudade” e “O Amor, o Sorriso e a Flor”), Tamba Trio, Baden Powell, Del Shannon, Joey Dee, Dion, Chubby Checker, Pepino di Capri (e outros italianos), Bobby Darin, The Beach Boys, Jean & Dean, o trio folk (que teve papel importante na divulgação de canções de Bob Dylan) Peter, Paul and Mary, e outros que não lembro agora, hinos eternos e apesar disso, tudo continuava o mesmo. Deixou de ser pouco tempo depois vocês já sabem com quem. E não podemos esquecer que já em 1963, surgiu Jorge Ben, com o genial “Samba Esquema Novo”. It’s getting better all the time

(sobre Bossa Nova, leia mais em Click Music, Tárik de Souza, UOL)

* Bob Dylan disse certa vez: “João Gilberto, Roberto Menescal e Carlos Lyra também estavam quebrando as regras, se libertando do samba infestado de percussão e criando uma nova forma de música brasileira com modulações melódicas. Eles chamaram isso de Bossa Nova. Quanto a mim, o que fiz para me libertar foi pegar modulações simples do folk e colocar imagens e atitudes novas, usar fraseados que capturavam a atenção e metáforas combinados com um novo conjunto de costumes que evoluiram para algo diferente. Eu sabia o que estava fazendo e não ia dar um passo para trás ou recuar por causa de ninguém”.

3 Respostas to “Bossa Nova, Beatles…”

  1. obrigado pelas palavras sobre meu pai (NIck Savoia)

  2. Marco Says:

    Lendo tudo isso, bebendo whisky, viajando por mares revoltos, posso dizer com propriedade, Beatles e João Gilberto são as maiores influências do século vinte e pra todo o sempre, na música mundial.

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