Verão do Amor – Monterey Pop


 

Monterey, cidade de 26.000 habitantes na época, situada a 160 km ao sul de San Francisco, Califórnia, foi o local escolhido para o 1º mega festival de rock da história, inspirado nos festivais de jazz que aconteciam desde 1958 e que atraia nomes como Billie Holiday e Modern Jazz Quartet. Aconteceu entre os dias 16 a 18 de junho de 1967, em pleno Verão do Amor, e que atraiu um público de 200.000 pessoas, o dobro da expectativa, sendo que 60.000 pessoas compareceram ao festival, um dos principais eventos do Movimento Hippie, que teve seu pico no Festival de Woodstock, em 1969, na costa leste dos EUA.

1967 foi o ano em que o Rock Psicodélico dominou o mundo. E quando se fala em estética psicodélica, se fala do Movimento Hippie. O auge desse estilo aconteceu com o Sgt. Pepper’s (Beatles, 1 de junho de 1967, 15 dias antes do início do festival), que foi o 1º álbum conceitual top 1 no mundo; o Pinky Floyd com “The Pipper at the Gates of Dawn” (1967); o Jefferson Airplane que lançou “Surrealistic Pillow” e ainda, Merry Pranksters, Jimi Hendrix Experience, Janis Joplin, The Doors. Essa fase musical está associada à cultura oriental, música clássica indiana, drogas (principalmente Cannabis e LSD), até Música Concreta (Kalr-Heinz Stockhausen). Esses componentes influenciaram Beatles (v. “Norwegian Wood”, para o Rubber Soul de 1965 e “Tomorrow Never Knows”, para o Revolver, de 1966), The Rolling Stones “(Paint it Black”, 1966), Frank Zappa and The Mothers of Invention (Freak Out), Pinky Floyd e Grateful Dead (Anthem of the Sun). Por falar em Grateful Dead, consta que quando ainda tinham um perfil folk, foram os primeiros a dar um passo na direção da psicodelia com o nome Mother McCue’s Uptown Jug Champions, em San Francisco. Com influência de Beatles e Byrds, trocaram os instrumentos acústicos pelos elétricos em 1965, e mudaram o nome para Warlocks. Depois disso encontraram os Merry Pranksters e Ken Kesey, um ícone da geração hippie, em novembro de 1965 e em dezembro de 1965 mudaram o nome para Grateful Dead.  A primeira banda a utilizar o termo ‘psicodélico’ na música pop foi também uma banda folk, The Holy Modal Rounders, em 1964, com “Hesitation Blues”. No rock, os primeiros foram a banda 13th Floor Elevators, e The Deep, com o álbum “Psychedelic Moods” em setembro de 1966. Depois vieram “Psychedelic Lollypop” do Blues Magoos, banda da Califórnia, e “The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators”. Os primeiros a tocarem sob o efeito de LSD foram The Charlatans, banda de San Francisco, em 29 de junho de 1965, no Red Dog Saloon, em Virginia City, Nevada, USA. E os primeiros a mencionarem o LSD foram os The Fugs em “I Coudn’t Get High”. O primeiro single psicodélico foi “Sunshine Superman” , do Donovan, também de 1965.

Barco e montanha, Peter Max

Apesar de que a maioria dos que entraram não tivesse convite, o festival teve uma arrecadação de US$ 200.000, destinados a instituições beneficientes. Contribuiu para isso o fato de que todos os artistas tocaram de graça, com exceção de Ravi Shankar, porque já havia sido contratado antes ainda de decidirem tornar o festival beneficiente. No espírito de paz e amor, tudo transcorreu sem problemas durante os 3 dias que durou, com boa organização, comida e bebida e acomodações para todos. O The Monterey Internacional Pop Festival foi organizado por John Phillips, dos Mamas and the Papas, pelo produtor da banda Lou Adler e um quadro de organizadores formado por Mick Jaegger, Paul MacCartney, Brian Wilson, Donovan, Roger McGuinn (The Byrds), Paul Simon, Johnny Rivers, Alan Pariger e Derek Taylor. Um dos fatores que garantiu o alto astral é que a segurança do evento foi feita por hippies da comunidade. Segundo McGuinn ( ver entrevista na F.S.P., Ilustrada, para artigo de Rubens Leme da Costa e Rogério Ortega em 16.07.97, por ocasião dos 30 anos do festival), a principal lembrança de Monterey “…foi a felicidade e a comunhão. Foram 3 dias incríveis, o público misturado com os artistas, além da música. Hendrix, Janis, Otis, meu Deus, foi incrível”. Na mesma entrevista diz que foi Paul MacCartney quem insistiu para que Hendrix tocasse no festival “vocês precisam ver esse cara ao vivo. Ele é selvagem”. Foi em Monterey que foram revelados Jimi Hendrix e Janis Joplin, a ainda desconhecida vocalista da banda Big Brother & The Holding Company. Tocaram, pela ordem :

16 de junho – The Association ; The Paupers (banda canadense) ; Lou Rawls ; Beverly ; Johnny Rivers; The Animals ;

Simon & Garfunkel

17 de junho – Canned Heat ; Janis Joplin com Big Brother & The Holding Company ;

Country Joe & The Fish ; Al Kooper ; The Butterfield Blues Band ; The Eletric Flag ; QuickSilver Messenger Service ; Steve Muller Band ; Moby Grape ; Hugh Masekele ; The Byrds ;

Laura Nyro ; Jefferson Airplane ;

 Booker T & The MG’s ; Otis Redding (foto abaixo de Janis).

18 de junho – Ravi Shankar ; The Blues Project ; Big Brother & The Holding Company ; Jimi Jendrix Experience ; The Group With No Name ; Buffalo Springfield ; Scott McKenzie ;

 The Who ; Grateful Dead ; The Mamas & The Papas.

Jimi Hendrix

As grandes ausências óbviamente foram os Beatles (havia rumores de que fariam apresentação relâmpago, logo desmentidos. Ainda estavam ressabiados por causa dos problemas enfrentados em 1966, por conta da reação à entrevista do Lennon); os Rolling Stones (por causa da prisão por drogas do Mick Jaegger e do Keith Richards), e Bob Dylan, que havia sofrido um acidente de moto. Também foram convidados e não compareceram, os Beach Boys, Captain Beefheart & The Magic Band, The Kinks, Donovan (ambos por não conseguirem vistos para entrar nos EUA) e o Cream, porque o Eric Clapton estava pretendendo estrear o Cream em grande estilo. Mas mesmo com as performances arrasadoras de Hendrix com o Experience, quando ateou fogo na guitarra ( a 1ª guitarra – Fender Stratocaster 1965 – incendiada do J. Hendrix aconteceu em março de 1967, no Finsbury Astoria, Londres, e foi leiloada em 4 de setembro de 2008, em Londres, por US$ 470.000) ao final de “Wild Thing” (dos Troggs); do Who com a quebradeira de Pete Townshend; dos hinos “Somebody to Love” (Jefferson Airplane) e “San Francisco” (Scott McKenzie), consta que quem incendiou mesmo a platéia foi Otis Redding (que substituiu os Beach Boys a poucos dias do festival começar), com interpretações maravilhosas de “Shake”, “Satisfaction”, “Respect” e “Try a Little Tenderness”, acompanhado pelo lendário guitarrista Steve Cropper e a banda Booker T. & The MG’s. Como disse Brian Jones, dos Rolling Stones (abaixo, com Nico, do Velvet Underground, no Monterey Pop), em lágrimas, após a apresentação de Otis : “Nem por 1 milhão de dólares subo no palco depois de um show de Otis Redding”.

Poucos meses depois, em 10 de dezembro de 1967, Otis com apenas 26 anos, morreria em acidente aéreo, quando o avião em que viajava caiu no Wisconsin. E Brian, 2 anos depois, em condições misteriosas.

O clima do festival era tão bom, que o chefe de polícia de Monterey, Frank Marinello, dispensou metade do efetivo policial antes do evento terminar. Afirmou nunca ter visto multidão tão pacífica. De certa forma, Monterey foi o balão de ensaio de todos os festivais e megashows que aconteceram desde então, embora nenhum com sua magia, e também porque introduziu no programa possibilidades mais abrangentes ao convidar artistas de culturas desconhecidas e diferentes (Ravi Shankar, da India, que já havia gravado com os Beatles, e Hugh Masekela, da Africa do Sul), o que se chama hoje de “world music”. Uma boa definição do que ocorreu foi dada pelo jornalista Stephen K. Peeles, que disse : “Foi a colisão do ‘stablishment’ corrupto com a contracultura emergente, sem feridos”. A frase impressa nos convites dizia : “Use flores, seja feliz, traga sinos. Teremos um festival”.

4 Respostas to “Verão do Amor – Monterey Pop”

  1. Olá Prezado,

    muito bacana o trabalho, gostei muito, muito… Você ganhou um leitor… Voltarei para dar pitacos sobre a década e fumar cigarro sobre as cinzas… Um prazer…

    Um abraço,

    Cesar Kiraly

  2. lucas cantino Says:

    o zappa era abstêmio…

    • sim, Lucas, mas por ser um crítico voraz das correntes, anárquico e dadá, mesmo que fosse uma paródia, a música produzida por ele sofria influência do mainstream da época.

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