Trilha Sonora de 1968

por edi cavalcante

1968 é considerado o ano mais importante do Século XX, o olho do furacão nos criativos e conturbados anos da década de 60, pródigos nas mudanças dos costumes, nas artes e na luta pelos direitos civis. Claro, a música tem uma posição central. Essa música era o Rock, e suas várias faces com possibilidades jamais imaginadas. Seguem as principais canções. Muitas das canções mais ouvidas são apenas comerciais, na esteira daquelas que interessam, e serão ignoradas.  Os números entre parênteses representam a colocação no Top 100 mundial de 1968.

Hey Jude – The Beatles (1ª) ; People Got To Be Free – The Rascals (3ª) ; Mrs. Robinson – Simon and Garfunkle (4ª), esta canção foi trilha sonora do longa The Graduate-A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols ; Born to Be Wild – Steppenwolf (13ª), trilha sonora de Easy Rider-Sem Destino, de 1969 ; Hello I Love You – The Doors (22ª) ; Jumpin’ Jack Flash – The Rolling Stones (27ª) ; The Dock of the Bay – Otis Redding, morto em acidente aéreo logo após alcançar pela 1ª vez o Top 1 ; Sunshine of Your Love – Cream (36ª) ; Chain of Fools – Aretha Franklin (51ª) ; I Heard it Through the Grapevine – Marvin Gaye (53ª); Love Child – Diana Ross/Supremes ; (Todas essas canções alcançaram o Top 1 em 1968).

Ainda : Revolution ( do Álbum Branco) – The Beatles ; Street Fighting Man (considerada a música mais política dos Rolling Stones, do Beggar’s Banquet) – The Rolling Stones ; Dance to the Music –Sly & The Family Stone ; Je t’aime mois non plus – Serge Gainsbourg & Jane Birkin ; É Proibido Proibir – Caetano Veloso,  que recebe vaias furiosas do público no 3º FIC (Festival Internacional da Canção, da Globo), no Tuca. Caetano não se intimida e faz um discurso inflamado e histórico ; Sabiá – Chico Buarque, canção em parceria com Tom Jobim, que vence no mesmo evento, mas é recusada pelo público, que prefere “Para Não Dizer que Não Falei de Flores”, de Geraldo Vandré, 2º colocado ; Tropicália – Caetano Veloso, canção-manifesto do movimento Tropicália ; Divino Maravilhoso (Caetano e Gil) – Gal Costa, que também lançou “Baby”, canção de Caetano Veloso, e participou do Festival da Record ; São Paulo Meu Amor – Tom Zé, 1ª colocada no mesmo festival. Isso tudo um mês antes do famigerado Ato Institucional nº 5 – AI-5 ; Carolina – Chico Buarque ; Roda Viva – Chico Buarque ; Eu Te Amo, Eu Te Amo, Eu Te Amo e Se Você Pensa – Roberto Carlos ;

Principais LPs

Lançado em 22.11.68, esse álbum duplo com capa de Richard Hamilton, um dos mais importantes artistas ingleses da Pop Art, e segundo ele, a marca forte da banda tornavam desnecessárias qualquer artifício publicitário. Esse álbum contém a maior parte das músicas compostas na India. Como Sgt. Pepper’s, é um disco gerado na direção oposta do mercado, panorâmico, inventivo, com um olhar “fish-eye”, crítico e belo. Significa que paralelamente ao mercado, havia um mercado rebelde, cuja embalagem continha o rótulo da rebeldia, do underground, da contracultura, que fazia parte dos ideais dos jovens que queriam tomar o poder, que queriam transformar os valores do establishment, que culminou com as barricadas de Paris, em maio de 68, 11 meses depois do lançamento do Sgt. Pepper’s. O nome da banda e o nº de série eram a princípio em relevo. Em apenas 1 semana vendeu 2.000.000 de cópias, apenas nos EUA. No Top 500 Melhores Albuns de todos os tempos da revista Rolling Stone, figura na 10ª posição. Mas é nº 1 em outras listas (v. BestEverAlbuns.com). É um álbum duplo com 30 músicas e cada uma bem diferente da outra. Fodástico. Como curiosidade, seriam lançados 2 “Black Album”, um do Prince (1988), que mostrou que ainda era possível fazer algo criativo 20 anos depois, e o outro é do Jay-Z, rapper norte-americano (2003). Aí aparece um cara novaiorquino, Brian Burton, conhecido como Danger Mouse. Ele se tranca num estúdio para produzir o que seria a união do instrumental do Álbum Branco (acima), com os vocais do “The Black Album” do Jay-Z, resultando no “The Grey Album” (2003), uma subversão da estética clássica desses 2 discos. Apesar do produtor ter acolhido o pedido da EMI, então proprietária dos direitos musicais dos Beatles, em recolher as cópias do álbum em circulação, não coseguiu evitar que chegasse à internet.

Esse disco representa o início da ‘fase de ouro’ dos Rolling Stones, também criado no conceito de oposição ao mercado, criativo e instigante ( depois viriam, Let it Bleed, 1969; Sticky Fingers, 1971; e Exile on Main Street, de 1972 ) e é também a última participação de Brian Jones, o fundador da banda, em um disco do grupo. Foi lançado em 6.12.68. Algumas curiosidades: consta que em 11.06.68, durante a gravação de “Sympathy for the Devil” no Olympic Studios, o telhado pega fogo. (Em 1969, no Festival de Altamont, CAL., o assassinato do jovem negro pelos Hell’s Angels, que faziam a segurança do evento, se deu enquanto tocavam essa música). Não pegou bem fazerem a capa similar ao LP dos Beatles. Nas 500 Mais da Rolling Stone figura em 57º lugar.

Dizem que as “assinaturas” rítmicas tocadas por Jimi Hendrix eram muito próximas dos rítmos tocados por seu pai nas cerimônias Vodu, que assistia quando era criança. Porém, é certo que a partir do encontro com o baterista Kwasi Dzidzornu, o Rocki, ficou claro seu interesse por cultos africanos, da etnia Yorubá. Ao ser perguntado sobre se havia “feito um pacto com o diabo”, respondeu, “pergunte à minha guitarra”. Esse é o último disco da Jimi Hendrix Experience, que daria lugar ao Band of Gypsys.

Primeiro LP individual de Caetano Veloso, início de um grande percurso, lançado em janeiro de 1968. Caetano já havia mostrado a que veio com “Alegria, Alegria”, uma lufada de ar fresco na MPB, quando se apresentou acompanhado da banda argentina The Beat Boys, no 3º Festival de Música Popular Brasileira (TV Record, out 1967). Estava em perfeita sintonia com o que estava rolando no mundo, partindo da sonoridade da Bossa Nova, para a ousadia do experimentalismo e consequentemente anti-comercial.

De 11 grandes álbuns da música brasileira, esse é considerado o nº 1, segundo a crítica especializada (v. Ilustrada, FSP, 13.01.05)*. É uma ruptura cultural, política e estética na MPB. “Engole” desde a Antropofagia do “Pau Brasil” de Oswalde de Andrade nos anos 20, a Poesia Concreta dos anos 50, a Bossa Nova, Vicente Celestino, a Banda de Pífano de Caruaru, a experimentação dos Beatles, leia-se Sgt. Pepper’s. Ou seja, uma identificação com o Modernismo brasileiro, busca de identidade nacional ao mesmo tempo que ligado nas vanguardas que sopravam da Inglaterra e EUA. ( Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinan, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão e arranjos de Rogério Duprat)

Janis Joplin e seu 1º disco e o melhor na minha opinião, ainda com Big Brother Holding Company e capa do Robert Crumb, mais underground, impossível.

 

Banda formada em 1966 com os irmãos Arnaldo e Sérgio Batista e Rita Lee. Sempre irreverentes, abertos para experimentações e muito criativos, Os Mutantes foram sem dúvida, a banda mais interessante surgida no Brasil. Beatles foram sua maior influência.

The Zombies, banda formada em St. Albans, Inglaterra, em 1961, tinha uma sonoridade complexa e bem jazística, como p.e. a linda “She’s Not There”. Esse disco é influenciado diretamente a partir de uma tendência que se originou na música “Yesterday” dos Beatles (1965), que deu início formal ao pop barroco.  A partir daí, o uso de orquestrações, instrumentos estranhos ao rock, viriam a ser largamente utilizados. Algumas músicas do disco, como Care of Cell 44, This Will be Our Year e Time of the Season, foram trilha sonora para “Tempo de Despertar” e “Montado na Bala”, 1990 e 2004, respectivamente. Na lista das 500 Mais da Rolling Stone figura em 80º lugar.

A banda que acompanhou Bob Dylan gravou esse grande disco que tem esse nome porque alguns integrantes moravam numa casa pintada de rosa (abaixo), onde tinham um estúdio e gravaram as canções.  Na lista da Rolling Stone figuram no 34º posto.

 

ISB – The Incredible String Band – Essa banda acústica escocesa formada em 1965 tem seu embrião na cena folk de Edinburgh (Edinburgh Folk Festival), capital da Escócia, por volta de 1962. São considerados pioneiros no estilo psych folk ( mistura de música folclórica dos anos 60 com músicas das bandas psicodélicas dos anos 60) e suas canções remetiam ao amor pela natureza e pelos pequenos animais. “The Hangman’s Beautiful Daugther” é considerado por muitos como seu melhor álbum. Ainda estão ativos.

 
* A lista completa : Além de Tropicália ou Panis et Circences de 1968 com 8 votos, vem, Acabou Chorare (1972), Novos Baianos, 5 votos ; Da Lama ao Caos (1994), Chico Science e Nação Zumbi – 4 votos ; Samba Esquema Novo (1963), Jorge Ben – 4 votos ; Elis & Tom (1974), Elis Regina e Tom Jobim – 4 votos ; Canção do Amor Demais (1958), Elizete Cardoso e João Gilberto – 4 votos ; Construção (1971), Chico Buarque – 3 votos ; Clube da Esquina (1972), Miltom Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes – 3 votos ; Secos & Molhados (1973), Secos & Molhados – 3 votos ; Cartola (1976), Cartola – 3 votos ; Amoroso (1977), João Gilberto – 3 votos.
 
Participaram da votação os críticos musicais Carlos Calado, Fernando Faro, Israel do Vale, João Máximo, Jotabê Medeiros, Lauro Lisboa Garcia, Marco Frenette, Mauro Dias, Pedro Alexandre Sanches, Sérgio Martins, Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello; Cada jurado indicou o nome de 10 álbuns.
 
 
 
 
 
 
 
                 

Uma resposta to “Trilha Sonora de 1968”

  1. Deglícia de blog!!!
    sabe que esses dias eu percebi uma semelhança imensa entre secos e molhados e o disco Sheer Heart Atack do Queen? pesquisando, descobri que ambos são do mesmo ano! acho que foram os ventos e influências da época.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: