Maio de 68 – 40 anos

por edi cavalcante

“É Proibido Proibir”, “A Imaginação no Poder”, “Tomo meus desejos por realidade, pois acredito na realidade de meus desejos”, “Quando penso em revolução quero fazer amor”, “Somos realistas: queiramos o impossível”, “As ruas são do Povo”, “Não pedimos nada. Não exigimos nada. Nós tomaremos. Ocuparemos”. São slogans que remetem a maio de 1968. Mas 1968 foi o ano em que tudo aconteceu, que emergiu uma realidade que que gerou uma politização automática, foi o paroxismo dos confrontos entre o sentimento libertário e autoritarismo. E contra a liberdade de expressão, a repressão. Durante todo o ano muitos eventos ocorreram em sincronismo por todo o mundo. As manifestações por mudanças nas estruturas era fundamental. Crítica radical do cotidiano, do consumo, do automóvel, da intoxicação pela mídia. Os Provos (em 1965) já haviam se manifestado e redigido um manifesto sobre esses assuntos. As manifestações estudantis em Paris (acima, as barricadas) tiveram início com a rebelião dos alunos de Nanterre (março), por não serem atendidos na permissão para que as meninas e os meninos pudessem circular livremente pelos dormitórios uns dos outros. Em 21 de março acontece a tomada do campus de Nanterre. No Rio, em 28, ainda em março, um estudante secundarista, o Edson Luís, é morto de forma estúpida, porque não fazia nada que pudesse ser considerado subversivo quando a PM invadiu o restaurante estudantil Calabouço, onde ele estava, gerando um confronto entre estudantes e policiais. A liderança da UNE, clandestina nesse período, reage com a convocação de greve nacional dos estudantes. Os confrontos continuaram em 29, e, à noite, após o enterro, os manifestantes queimaram a bandeira dos EUA, visando atingir o governo brasileiro.

1968 trouxe uma forte densidade política contra o regime militar. Mas o ano prometia, porque já em janeiro, em 31, acontece a Ofensiva Tet, lançada pelos Vietcongs. Foi o começo do fim para os americanos, que viram cada vila, cada lugarejo, ser tomada pelos guerrilheiros, sitiando-os  e diminuindo seu espaço. A guerra começa a ser perdida pelos EUA. Em fevereiro a ofensiva prossegue e as TVs documentam tudo, levando aos lares americanos cenas brutais de violência. E em 16 de março acontece o Massacre de My Lai, e a opinião pública não suporta a visão das atrocidades cometidas. Em 4 de abril Martim Luther King é assassinado em Memphis. Por todo os EUA, as comunidades negras protestam após o enterro de Martim Luther. Em maio, Daniel Cohn-Bendit “Dany, Le Rouge”, estudante de sociologia em Nanterre, onde teve origem a revolta contra o sistema educacional na França, propõe a ocupação da Sorbonne.

Entre os dias 5 e 7, o Quartier Latin vira um campo de batalha. Em 9 de maio o exército soviético chega à fronteira da Tchecoslováquia. Em 11, Georges Pompidou anuncia a reabertura da Sorbonne e anistia aos estudantes. Mas não adiantou. Mais de 10.000 trabalhadores franceses iniciam greve geral no dia 21, em apoio aos estudantes. A França pára. Ruas incendiadas, carros virados. No Rio, na Candelária, passeata dos 100.000, com participação de artistas e intelectuais.

Protestos na Alemanha, Japão e Inglaterra. Nos EUA, os confrontos tornam-se mais violentos. Na França, De Gaulle dissolve a Assembléia Nacional e propõe novas eleições. Em 30 de maio, a classe média francesa atendeu ao apelo de De Gaulle em passeata de apoio ao governo. Em junho, o Quartier Latin continua queimando. Em Nova York, o artista plástico Andy Warhol é baleado por uma mulher, Valerie Solanas. No dia 5, Bob Kennedy (Robert Fitzgerald Kennedy), irmão do ex-presidente John Kennedy, em campanha presidencial, é assassinado em Los Angeles.

By Antony Bridle

Com as eleições, a França volta à ordem. Os comunistas são derrotados.

O acordo sindical não animou os estudantes, e acusam a CGT, central dos trabalhadores, de impedirem a revolução.

Em São Paulo, acontece a batalha campal na rua Maria Antônia, entre alunos da Filosofia, Ciências e Letras, contra alunos da Faculdade de Direito do MacKenzie, mas na verdade, o pessoal do CCC, Comando de Caça aos Comunistas, que, presume-se, provocaram o conflito, ao jogarem um ovo sobre os alunos da USP. O mesmo CCC que em 17 de julho, invade o teatro onde era levado a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, e espanca os atores.

O exército do Pacto de Varsóvia (URSS, Polônia, Alemanha Oriental, Hungria, Bulgária), liderado pela União Soviética, sob Leonid Breznev, invade a Tchecoslováquia em 21 de agosto e impõe um retorno ao totalitarismo.

Foi uma operação estilo blitzkrieg, com aviões fazendo vôos rasantes já na madrugada do dia 21 e uma rápida ocupação com os blindados nos pontos estratégicos de Praga, passando por cima de quem quer que estivesse à frente, inclusive um jovem que tropeçou diante de um tanque e foi esmagado pelas esteiras. Repressão volta com tudo na Tchecoslováquia.

Essa invasão desmontou o que ficou conhecido como a Primavera de Praga, uma experiência iniciada 8 meses antes, “socialismo com face humana”. Isso aconteceu porque Alexander Dubcek, um torneiro mecânico eleito Secretário Geral do Partido Comunista Tcheco, em janeiro de 1968, iniciou um processo de democratização no país – sindicatos independentes, abolição da censura, livre competição entre as empresas estatais – com forte adesão dos jovens e estudantes e de parte da população, e que já tinha provocado uma reação soviética posicionando os tanques na fronteira alguns meses atrás – o que significava ir contra a política do Kremlin.

Esse evento põe fim ao sonho de a Tchecoslováquia se ver livre do peso da Cortina de Ferro, como era chamada a fronteira que abrangia os países do Pacto de Varsóvia.

Em 12 de outubro, em Ibiúna, interior paulista, a PM invade o 30° Congresso da UNE e todos são presos.

No México, em simples manifestação pacífica, 500 são mortos. Estava claro que em todo mundo, que a geração que detinha o poder no pós-guerra tinha valores enraizados, cristalizados, com dificuldade de aceitar o novo que impunha e confrontava tudo que já não fazia sentido. A juventude por sua vez jamais viveu tamanha utopia com palavras de ordem e ações de enfrentamento em sintonia com a força criativa transformadora. E em 13 de dezembro de 1968, o presidente da República, general Arthur da Costa e Silva, decretou o AI-5, Ato Institucional nº 5, fechando o Congresso e concentrando todo o poder na figura do presidente, o que significava a perda dos direitos constitucionais do cidadão, e o recrudescimento da violência e da repressão, da censura, perseguições, cassação em massa e prisão de políticos e também de qualquer um que não se alinhasse a esse ‘estado de coisas’. E ainda ia piorar, os anos de chumbo batem à porta. Caetano Veloso e Gilberto Gil são presos.

Com isso, os artistas tiveram de encontrar formas de expressar idéias. Se antes do AI-5, as iniciativas dos artistas levavam a passeatas e manifestações, depois, a força da repressão foi muito maior e com consequências muito mais fragmentárias do que se poderia supor. Essa penúria durou longos 11 anos. Abaixo, faixa em passeata com a alusão à canção de Chico Buarque.

E apesar de toda a revolução de costumes, na cultura, de valores, apesar de tudo isso, chama a atenção a matéria “A Irrelevância de 1968” (e os livros “Never Had It So Good” e “White Heat”), de Dominic Sandbrook, em 5.05.08, publicada na UOL Mídia Global, em que diz que “para as pessoas que tiveram uma vida boa nos 50 e 60, nos EUA, p.e., votaram maciçamente (os jovens incluídos) em Nixon, e a guerra do Vietnã durou mais 7 anos, e só acabou com a vitória do Vietnã”. Essa grande maioria silenciosa, medíocre, “foi quem conduziu a história nos anos que se seguiram e se mantiveram conservadores em suas atitudes políticas e culturais”. E na Inglaterra, a desvalorização da libra esterlina, enfraquecia o governo trabalhista de Harold Wilson, os salários estagnaram-se e as greves paralisavam o país. No mundo todo, o final dos 60 (e no Brasil por volta de 1974) já havia mostrado que a irreverência, as ações vanguardistas, a significação da obra de arte, os hippies, beatniks, freaks, tinham chegado ao ponto de diluição, tudo absorvido pela classe média. Saturação. Como disse Otília Beatriz Fiori Arantes (“Depois das Vanguardas”, Arte em Revista nº 7, Ceac, 1973), “tentar escandalizar quando nada mais escandaliza é arrombar uma porta aberta”. Também é interessante citar Jean Claude Milner, autor de ensaios implacáveis (v. “O Sábio Judeu”, edit. Grasset, 2006), que no pós-68 pertencia à Esquerda Proletária (GP, sigla em francês), principal organização maoísta na época. Atualmente, no Instituto de Estudos Levinessianos, – criado em 2000 ao redor de seu amigo Benny Lévy, antigo chefe da GP – em palestra para examinar o “encontro” entre Maio 68 e o esquerdismo francês, coloca que Maio de 68 tem de ser visto como questão do presente. Uma questão do AGORA, referindo-se à época. Ele diz, “Maio de 68 não é para os outros, para mais tarde. É para nós, aqui e agora” (v. cesarkiraly.wordpress.com). A corrente vigente nos EUA acadêmicos de hoje é que os 60 não deixaram legado. Talvez venha daí a frase que diz que “a década de 60 é a década da esperança perdida”. Mas, na minha opinião, o fato de que a Guerra do Vietnã não tenha acabado ainda nos 60, p.e., não significa que as manifestações pela paz, inspirados pelo “Flower Power”, que perdeu o sentido de existir – e os confrontos diretos com a polícia ou que o Cassius Clay (depois Mohammed Ali), tenha se recusado a servir no Vietnã – não tenham influenciado mentes e corações de todo o mundo, e que isso não tenha causado uma pressão interna cada vez maior dentro dos EUA, mesmo com a força do sistema corporativo canibalizar e reverter tudo em números (financeiros, a seu favor); ou que a música de Dylan e Beatles, os festivais, não tenha influenciado toda uma sequência de transformações culturais; ou que artistas como Hélio Oiticica, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto e o Tropicalismo (mesmo durando pouco) não tenha sido um divisor de águas na cultura brasileira. E ainda, as conquistas dos direitos civis nos EUA, Martim Luther King, Malcom X, o fim do apartheid, o direito do negro de votar; o Feminismo, a emancipação da mulher; o Orgulho Gay, o Ambientalismo, que tiveram campo para se expor, lutar, se afirmar e expandir.

A seguir, filmes realizados por volta de 1968, do Cinema Novo e Cinema Marginal na “MOSTRA MEMÓRIA E CENSURA NO CINEMA BRASILEIRO”. 10 A 26 DE JUNHO DE 2008 – 19 HORAS – CINECLUBE PÓLIS – R. Araújo 124, Centro – Entrada Grátis – depois dos filmes debates

Fome de amor – Nelson Pereira dos Santos – 1968; Bandido da Luz Vermelha – Rogério Sganzerla – 1968; Navalha na Carne – Braz Chediak – 1969; Lance Maior – Sílvio Back – 1968; Brasil Ano 2000 – Walter Lima Jr. – 1968.

2 Respostas to “Maio de 68 – 40 anos”

  1. Maria Fernanda Alves Says:

    Meu nome é Maria Fernanda Alves, sou jornalista e estou produzindo uma propaganda e gostaria de saber sobref os direitos autorais dessas fotos.Aguardo um retorno Urgente(38)9193-3127.

    • Maria Fernanda,
      você terá de checar os direitos autorais com os autores das fotos, não comigo. E lembro que as regras são bastante rígidas quanto a isso, principalmente quando se trata de utilizá-las comercialmente, como é o seu caso.
      e.c.

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