O Experimento Newport

por edi cavalcante

Foi assim que ficou conhecido o Festival Folk de Newport, costa leste dos EUA, em 25 de julho de 1965. Foi justamente lá, no mais tradicional dos eventos folk, que Dylan (foto acima) se apresentou com guitarras elétricas, e provocou uma violenta reação. Newport não esperava que seu queridinho abandonasse suas raízes. Foi um caos. Imagine um público de pessoas que acreditavam que sua música tradicional era a única que se mantinha pura e fiel às suas raízes, e ainda por cima, para qualquer lado que virassem o ‘dial’ de seus rádios só encontravam Beatles, outros grupos inglêses de rock e R&B. No sábado, 24, Dylan tocou “All I Really Want To Do” e “Mr. Tambourine Man” ( do LP “Bringing It All Back Home”, março de 1965, meio acústico, meio elétrico ). Ele queria cantar “Like a Rolling Stone”, e para isso, foram recrutados 3 membros da Paul Butterfield Band: Mike Bloonfield-guitarrista; Sam Lay-baterista; Jerome Arnold-baixista. A banda foi completada com o pianista Barry Golberg, que Dylan encontrou numa festa em Newport, mais Al Kooper no órgão. Depois passaram a noite numa mansão da cidade, ensaiando até o amanhecer, e mantiveram o plano secreto até a hora de subir no palco. Em 25, domingo, Dylan começou “Maggie’s Farm”, e o público veio abaixo com vaias enfurecidas. Quando começaram a tocar “Like a Rolling Stone”, gritos ensurdecedores e pedidos “Toquem música folk! Isto é um Festival Folk!”, tornou impossível a continuação do show. Nessa hora Dylan retirou-se com a banda, mas o ‘mestre de cerimônias’ Peter Yarrow e a cantora folk Joan Baez conseguiram que voltasse ao palco, sozinho, com uma guitarra acústica jogada em suas mãos. O público pedia “Mr. Tambourine Man” e Dylan disse: “OK, eu tocarei esta para vocês.” E foi aplaudido. Em seguida tocou “It’s All Over Now, Baby Blue”, como um adeus a Newport (até 2002) e ao público de folks puristas. Para eles, foi como o ato de jogar uma bomba em algo sagrado. Talvez tenha sido, mas a luz que se fez iluminou os horizontes da música norte americana de forma irreversível. A partir daí a música folk teve suas fronteiras alargadas. Foi o fim do revival folk. E foi determinante para toda a música popular. Tudo se tornava possível na música popular. Depois, em agosto de 65, em Forest Hills, Dylan juntou-se à banda canadense The Hawks, e cantou “Like a Rolling Stone” para um público que ainda o vaiava. Depois disso, The Hawks muda o nome para The Band e passa a acompanhá-lo em tempo integral. Nesse rastro seguiram-se bandas como The Lovin’ Spoonfull; Buffalo Springfield; Crosby, Still, Nash & Young (que se juntou depois ao grupo); Flying Burrito Brothers; Dillard & Clark. Mais para frente surgiram The Eagles, Tom Petty, REM, Jay Hawks, Big Star, Gin Blossoms, Travis, Dream Syndicate, Shins e Beachwood Sparks.* Tudo isso nasceu das duas sementes que se misturaram naquele encontro no final do verão de 1964 em Nova York.

A lindíssima Joan Baez, musa folk

* v. Ana Maria Bahiana, “O Trovador Elétrico”, A História do Rock, Vol. 2 , Bizz.

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