NOW

por edi cavalcante

“NOW”, “AGORA”, é o advérbio que virou um mantra, slogan e palavra de ordem nos anos 1960. Se nos anos 1950 a ‘geração beat’ mostrava interesse pelo zen em contrapartida ao materialismo crescente, nos anos 1960 a popularização da yoga e da meditação transcendental – principalmente após encontro dos Beatles com Ravi Shankar (1965) e com Maharishi Yogi (1968) – foi abraçada pelos hippies, que buscavam uma cultura pacifista e gerou o slogan anti violência e contra a Guerra do Vietnã mais famoso dessa década: “Make Love not War”.

60, make love...

Foto: Arquivo de mídia

E tornou-se palavra de ordem por todos aqueles engajados em movimentos pró Direitos Civis e contra a Guerra do Vienã. “Be Here Now”. As bandas de rock eram os shamãs modernos (V. “Maps to Ecstasy: Teaching of an Urban Shaman”, 1989, Nataraj Publishing, Novato, CA, USA) e urbanos e o rock era o maior veículo de comunicação. “We want the world and we want it now“, (When The Music’s Over, Strange Days, The Doors, 1967).

Be Here Now, canção do álbum All Things Must Pass, George Harrison, 1970

e Gil, “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”, Refavela, Gilberto Gil, 1977

São canções cujas letras remetem à reflexão ao mesmo tempo que determinam uma ação imediata, imperativa, focadas no aqui agora. Levando em consideração que se vivia em um tempo de precária estabilidade. Do It Now. Faça Agora. Viver o momento. Instantaneidade. Ian MacDonald, em seu “Revolution in the Head” (Fourth State, London, 1994), cita que “a combinação hippie/Nova Esquerda constituiu um ‘inimigo interno’ que tinha de ser derrotado. Apesar de sério, mas pacífico, esse conflito entre o conservadorismo parental e o idealismo juvenil, degenerou gradualmente e bateu de frente numa luta entre o passado repressivo e um futuro ultra libertário.

“Crown of Creation”, The Jefferson Airplane

“Five to One”, The Doors

“Mom & Dad”, The Mothers of Invention

“Killing Floor”, The Eletric Flag

“Kick out the Jams”, MC5

As correntes pacifistas conviviam com o clamor inaugurador de uma nova era de radicalização que combatia a Guerra do Vietnã, o racismo, os guetos negros, a violência policial. Posicionava-se pelos direitos civis e minorias, contra a posição do governo americano de que a contra cultura representava uma ameaça direta à segurança nacional. Provavelmente você acha isso familiar, ou se já ouviu falar, é porque por aqui, nos chamados “anos de chumbo”, o governo também se utilizou de argumentos muito parecidos para justificar a repressão violenta. Os valores das gerações anteriores, mais rígidas, mais prudentes, focadas em acumular para o futuro, ficaram datadas com a expansão econômica do pós-guerra e com o fato de que os jovens tinham pela primeira vez dinheiro para gastar. Conforme MacDonald, embora a relativa opulência fosse o “fator instigador da mentalidade do ‘NOW’, havia algo mais profundo acontecendo: uma reação contra o materialismo comparável aos expostos por Beatniks e Existencialistas nos anos 1950. Mais que isso – como notado pelos Beatles em Eleanor Rigby, Revolver, 1966 –

canção baseada no fracasso da Igreja em prover algo mais que um serviço social semanal para as comunidades locais”. Os jovens viram que as posições de seus pais estavam obsoletas e que, desde que este mundo seria o único que eles conheceriam, não fazia sentido postergar o prazer. O jazz, o blues, o rock, os hippies, os beatniks, os festivais de música, eram modelos perfeitos de atualidade pós-Cristã. Tempos depois Lennon disse que : “The whole Beatles message was Be Here Now” (“A mensagem mais abrangente dos Beatles foi Esteja Aqui Agora”). Como disse Pete Townshend (The Who), os anos 60 aconteceram “em rotação acelerada” (“in a flat spin”).

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