Nozems e Provos

 

por edi cavalcante

 

Na Holanda, entre 1965 e 1967, paralelamente ao nascimento dos hippies nos EUA, surgiu um movimento denominado Provos (uma abreviação de provocadores), que seria de fundamental importância no nascimento da contracultura. Sua história se inicia no pós guerra, antecedidos por adolescentes entediados de uma Holanda abastada economicamente, – graças à prosperidade e ao pleno emprego da Era de Ouro – e que gostavam de rock and roll, se vestiam com jeans e roupas de couro, e cujo poder aquisitivo lhes possibilitava a aquisição de motos e lambretas e se divertiam andando por aí, provocando a todos e principalmente as autoridades policiais. Eram os Nozems. Ainda não sei de onde vem essa palavra. Eram mais ou menos uma versão dos teddy boys ingleses dos anos 50. Mas o diferencial foi que Roel Van Duyn, que estudava filosofia na Universidade de Amsterdã, sacou alguma coisa além da delinquencia  dos Nozens. Ou seja, sua delinquência podia ser transformada em consciência revolucionária, conforme escreveu em 1965. Provocativos,tinham potencial revolucionário, dando origem aos provos. Conforme relata Ana Clara Costa, in, Revista Paradoxo, 4.10.2004, “Van Duyn tornou-se a base teórica do movimento provo. Robert Jaspers Grootveld, co-fundador do movimento, era ex-limpador de janelas e artista performático, aparecendo na Praça Spui, no centro de Amsterdã, todos os sábados à meia-noite, com roupas estranhíssimas, para falar de suas idéias anti-consumistas e anti-tabagistas, para uma crescente platéia de Nozems, intelectuais, operários, curiosos e, …a polícia. Esses encontros eram chamados de happenings. Foi nos happenings que Van Duyn apareceu distribuindo panfletos que anunciavam o nascimento do Movimento Provo.

Os provos foram os primeiros a usar a não violência e o humor absurdo para criar mudança social”. Grootveld: “Quando li a palavra anarquismo naquele panfleto, percebi que aquela obsoleta ideologia do século 19 poderia se tornar a coisa mais fervilhante dos anos 60″. E inspirados pelo anarquismo, dadaismo, pelo filósofo alemão Herbert Marcuse e pelo Marquês de Sade, dão o pontapé inicial no nascimento da contracultura. Amsterdã tornou-se a meca dos jovens de todo o mundo e a capital da desobediência civil. “Provo tem consciência de que no fim perderá, mas não pode deixar passar a ocasião de cumprir ao menos uma quinquagésima e sincera tentativa de provocar a sociedade”. Parece um manifesto dadá. E tem o mesmo efeito. No nº 15 de seu tablóide em maio de 1967, decidem finalizar o movimento, com festa de despedida no Vondel Park, com consciência de que se tornaram parte do espetáculo, deixando de fazer sentido. Mesmo porque conseguiram a exoneração do truculento chefe de polícia e do prefeito, entre muitas outras provocações e objetivos alcançados. Escreve Carlota Cafiero para o livro ” Provos, Amsterdã e o Nascimento da Contracultura”, do escritor italiano Matteo Guarnacia, editora Conrad, coleção Baderna : “Quando tudo vai bem, desconfie. Há sempre algo podre sob o véu da hipocrisia”.

O excesso de conforto, de segurança, e o amplo acesso aos bens de consumo da Holanda, tornaram maior o anti-conformismo dos herdeiros da tradição anarquista. Tinham de contestar algo, lutar contra algo, alguém, algum inimigo. Mas qual ? Então deixaram o cabelo crescer, inclusive influenciados por 4 cabeludos de Liverpool, que se apresentaram em Amsterdã, mas ainda não bastava. De repente, manifestaçãoes espontâneas e isoladas de performáticos contestadores da industria e da propaganda começaram a ‘pipocar’ aqui e ali.  Um deles foi Robert Jasper Grootveld, que fundou um templo anti-fumo, onde criava seus happenings contra o vício da nicotina. Sua igreja se chamava Dependência Consciente da Nicotina, onde uma turba de fiéis entoavam mantras como “Kof, Kof, Kof, Kof”. Outdoors e cartazes eram pichados por ele com um “K” negro, inicial de “Kankler” (câncer). Por essas e outras foi preso 2 vêzes. Vários projetos vingaram. Em protesto contra a “caixa peidorrenta de ferro” (automóveis), os provos lançaram o Plano da Bicicleta Branca.

Voluntariamente, os jovens que frequentavam a Spui, levavam suas bicicletas para serem pintadas de branco e depois espalhadas pelas ruas para o uso irrestrito de todos”. E mais tarde confiscadas pela polícia. Também criaram o Marihu Project, pela legalização da maconha, objetivo alcançado. Excursões provos para fora da Holanda foram poucas e breves. Passaram pelo Marrocos, Ibiza, Ilhas gregas e estabeleceram-se em Londres por algum tempo, tornando-se ícones da casta de artistas psicodélicos. Foi quando desenharam os figurinos do Sgt. Pepper’s, e a provo Marijeka Koger, que fazia a dança dos 7 véus inteiramente nua pintada com cores fluorescentes, tornou-se a grande estilista dos malucos ingleses.

Segundo Matteo, enquanto os beatniks tinham atitude de afastamento para fora da sociedade, os provos empenharam-se descaradamente em permanecerem dentro da sociedade, para provocarem nela um curto-circuito. O slogan dos estudantes franceses de Maio de 68, “a imaginação no poder”, é inspirada nos provos. Mas estes, ao contrário, utilizaram a imaginação contra o poder.

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