Surgimento dos Beatles. Mudanças.

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De todos os países capitalistas desenvolvidos ‘ que representavam cerca 3/4 da produção do mundo e de 80% de suas exportações manufaturadas’ (E. Hobsbawn, “A Era dos Extremos”, pag. 255), a Inglaterra era o país que tinha a taxa mais baixa de crescimento, se comparada com outros países ocidentais, o Japão, os EUA (que continuaram com a mesma taxa de expansão da época da guerra e se tornara a maior potência mundial) e, principalmente, a URSS, com a  taxa mais veloz de crescimento, na economia florescente do pós-guerra e dos anos 60. Ainda assim, o capitalismo avançava mais que o comunismo. A questão ambiental e ecológica não estava no cerne da questão, porque algumas ações na Inglaterra ( proibição do uso do carvão como combustível, colaborando para o fim do fog londrino, e a despoluição bem sucedida do Tâmisa) davam a sensação de que qualquer excesso ambiental poderia ser sanado rápidamente desde que tivesse a ação adequada. Mas em comparação aos outros países, a Inglaterra caminhava a passos de tartaruga, e mesmo assim, o slogan da campanha política de um partido conservador era : “Você nunca esteve tão bem”, o que, mesmo com o crescimento lento correspondia à verdade. Mas foi também nesse período de exuberância econômica que ocorreram guerras criadoras de fome ( Guerra da Coréia, do Vietnã, guerras na África) e loucuras políticas como na China. A industrialização cega nos países socialistas, o ‘boom’ das incorporadoras e imobiliárias (principalmente EUA), que tiveram ação devastadora na economia, obtendo empréstimos dando por garantia obras futuras, até o ‘crash’ final que determina o fim de todas as épocas de crescimento. Mas aí já estava instalado o resultado funesto da explosão desenvolvimentista: poluição e problemas graves ecológicos. Um dos grandes motivos dessa situação foi a utilização do petróleo como fonte energética. O preço do barril do petróleo entre 1950 e 1973 (Rostow, 1978, pg 256, tabela III, pg 58, in E. Hobsbawn, Era dos Extremos, pg 258) custava menos de dois dólares na Arábia Saudita. Energia barata, impacto maior sobre a natureza, e consumo de energia triplicado nos EUA.

Bem no início da década de 60, o maior ídolo britânico era Cliff Richards & The Shadows, com mais de 20 músicas no Top 10 inglês e, apesar do empenho de sua gravadora, a Epic, colocando-o no Ed Sulivan Show na mesma noite de Elvis Presley, alcançou apenas 2 músicas no Top 40 norte americano.  Quando os Beatles (foto acima. 9.02.64, chegada em Nova York, em sua primeira visita aos EUA) surgiram em 1962 – já existiam antes, com excursões para Hamburgo – (quem menos gostou foram os fãs de Elvis – mas eles próprios eram fãs de Elvis), coincidiu com a queda do conservadorismo nos anos 60 da Inglaterra. Sua eclosão representou uma revolução comportamental e musical (rock e pop). Harold Wilson, no meio de uma crise em 1964, foi forçado a aumentar as taxas de impostos – sabe Taxman, do Revolver (1966) ? Aquele corinho no fundo “ah, ah, Mr. Wilson”, tinha endereço. Ian MacDonald, em seu Revolution in the Head, conta que, “…felizmente o mercado estava próspero, ajudado pelo aumento de emprego, que rapidamente criou um ‘boom’ de jovens consumidores”.

The Beatles ao vivo no Shea Stadium, NYC

Tendo os Beatles como ponta de lança, os dois anos da ‘British Invasion’ no Top 10 americano, estabilizou a Grã Bretanha como o centro do mundo pop com o florescimento de talentos nunca visto antes. Essa primeira fase dos Beatles, a beatlemania, estendeu-se até meados de 1965. Em janeiro de 1964 a banda tinha 5 músicas no Top 5 norte-americano simultaneamente, durante semanas (v. Hit Parade norte-americano de 31.01.1964). Isso nunca mais se repetiu. E a partir daí o mercado fonográfico explodiu.

Nas Artes Visuais, a Pop Art – Richard Hamilton (que faria a capa do White Album), Peter Blake (que produziria a capa do Sgt. Pepper’s) e David Hockney na Inglaterra. Andy Warhol (que criaria a capa do Sticky Fingers, dos Rolling Stones e ainda produziria a banda novaiorquina The Velvet Underground) e Robert Rauschemberg nos EUA, para citar exemplos expoentes mais conhecidos – e a Op Art se tornaram o assunto das galerias do mundo, e uma nova geração de fashion designers, modelos e fotógrafos. Mary Quant,  é considerada a inventora da mini-saia e mostrava suas coleções em sua  boutique na Carnaby Street, centro cultural da Swinging London. Emsuas palavras, refuta o título, e disse que “…nem ela e nem Courrèges inventaram a mini-saia. Ela foi inventada nas ruas”. E assim, de “cabelos compridos, saias curtas, e o sol aparecendo sobre a rejuvenescida Inglaterra, alerta, e determinada a ter o melhor dos melhores momentos”.

Mary Quant, a 4ª da esquerda para a direita, com seu cabelo Mod, aliás, copiado dos Beatles

 

twiggy

Twiggy, o rosto de 1966

 

jean-shrinton

Verushka, by Richard Avedon, 1967

A fogueira-beatle

Os Beatles surgiram em momento muito conturbado e numa época de evolução social sem rumos  definidos. A década de 60 foi uma década de movimentos libertários (Che Guevara, Direitos Civis) e contra o stablishment, da Guerra do Vietnã, movimentos estudantis, de confrontos em todas as frentes. Universitários enfrentavam a polícia nos EUA contra a Guerra do Vietnã, em Paris por melhores condições no campus e que se alastrou por todo o mundo. E em São Paulo, no Rio de Janeiro e em muitas cidades brasileiras, os confrontos foram contra a ditadura e os seus excessos. Foi um tempo de liberação de tremendo ânimo novo refletidos em avanços culturais e de forma mais visível, na música.

Nem os Beatles e nem o sistema estavam preparados para a forma como tudo estava acontecendo em seu começo. Multidões de garotas mastigavam a grama pisada por eles, enfrentavam os policiais que não sabiam lidar com a situação que tomava a Europa como uma avalanche, e o resultado era dezenas de meninas com costelas quebradas.

No início de julho de 1966, a jornalista Maureen Cleave, do Evening Standard, jornal londrino, entrevistou John Lennon para uma repertagem “Como Vive um Beatle ?”. No meio da entrevista John disse : ” O cristianismo vai passar, vai desaparecer e encolher. Não preciso argumentar, estou certo e o tempo vai provar. Atualmente, somos mais populares que Jesus Cristo; não sei o que vai passar antes, se o rock’n’roll ou o cristianismo. Jesus estava certíssimo, mas seus discípulos eram fracos e medíocres. A distorção que produziram arruinou tudo para mim.”

Durante a 2ª turnê dos Beatles aos EUA, no mesmo mês, saiu na Datebook, uma dessas revistas para adolescentes, publicou a frase que iria desencadear um turbilhão de reações de religiosos fanáticos: “Somos mais populares que Jesus Cristo”.  As rádios tiveram papel importante, convocando a todos para queimarem os discos da banda nas ruas, fato que se tornou conhecido como as “fogueiras-beatles”. O Vaticano, através de seu órgão oficial, o Osservatore Romano, aceitava a possível realidade desse fato, tornando assim oficial, um perdão a Lennon, que se desculpou publicamente, afirmando que não houvera intenção de ofender ninguém. Ele não disse que eram mais importantes que Jesus Cristo, e sim, mais populares. Mesmo porque ninguém falava de religião à época. Acho até que depois disso, lá em Roma, resolveram reestruturar a forma de ação no mundo contemporâneo, de forma a se tornarem mais atraentes para os jovens.

A Klu-Klux-Klan realizou passeatas em frente ao estádio onde eles se apresentavam, ameaçando-os com atentados. DJs da WAQY, rádio do sul dos EUA, programaram para o dia 19 de agosto uma fogueira para queimar os discos do Beatles, ideia que passou para outras comunidades fundamentalistas. Várias rádios queimaram os estoques inteiros dos Beatles e conclamavam a todos para fazerem o mesmo. Entre os Beatles o clima era mais de piada. Eles diziam : “Cara, isso não nos prejudica; queime, se quiser”. Mas a coisa era muito séria. E o mais incrível, é que durante uma tempestade, um raio atingiu a torre de uma das rádios, que ficou sem transmitir por várias horas.

Nas Filipinas, para uma única apresentação, o governo retirou toda a proteção porque recusaram um jantar com a primeira dama Imelda Marcos e os deixaram por conta própria. A fuga para o aeroporto foi uma operação de cinema, perseguidos por multidão enfurecida até o avião, à beira de um linchamento. Soma-se a isso o desejo de se aprofundar mais nas experimentações que tinham em mente, temos os motivos que os levaram à decisão de não se apresentarem mais ao vivo. Mas não só isso. Mais à frente, com a morte de Brian Epstein, tiveram que administrar tudo aquilo. Contrataram Allen Klein para gerenciar os negócios da banda e foram roubados escandalosamente. Não por falta de aviso. Mick Jagger já havia falado do caráter fuleiro de Klein. E Paul foi o único voto contra a contratação. Com a imensa fortuna gasta na construção da Apple e fazendo projetos extravagantes, começou a fazer água. Conclusão: passavam mais tempo nos tribunais que nos estúdios. E o que antes era apenas o fato de terem se tornado adultos e a consequente maturidade de cada um querer seguir do seu jeito, agora passava a haver ressentimentos, discórdia e até desconfiança. E a presença de Yoko Ono teve o poder de amplificar  as fissuras que já estavam aparecendo. E ainda assim fizeram os maravilhosos White Album e Abbey Road. Quer dizer, não saíram do topo do começo ao fim.

Quando voltaram ao hotel encontraram as portas cerradas e onde foram agredidos

John disse : Não quero mais fazer turnês, especialmente após ter sido acusado de crucificar Jesus […] e tendo que ficar lado a lado com a Klan, perto das bombas que explodiam lá dentro”. Para ilustrar melhor o tamanho da loucura, durante a turnê pelos EUA, eles tinham à disposição um avião Lockheed Electra. Anos depois, em um encontro com George Harrison, o piloto contou que caras ciumentos ficavam esperando, sabendo a hora que eles chegariam e atiravam no avião para derrubá-lo. Diz o piloto : “Você não acreditaria naquele avião ! Estava cheio de buracos de balas”. George Harrison comentou ao aceitarem convite para festa na embaixada após show no Colliseum : “Nós tentamos pular fora de tais chatices. Porém, daquela vez nos pegaram. Tais festinhas são cheias de esnobes, que na verdade nos abominam, mas que querem ver-nos porque somos ricos e poderosos. Tudo não passa de hipocrisia”.

3 Respostas to “Surgimento dos Beatles. Mudanças.”

  1. Salve Edi,

    mande brasa.

    escreva muito!! estaremos por aqui lendo e aprenendo.

    abs

    Mário

  2. Com certeza foi na minha comcepção a melhor e maior banda de todas.
    Com todo meu respeito a Elvis, os beatles foram os melhores.

  3. Retificando “concepção” Obrigado a todos.

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