Xuxu beleza ?

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obra de Yoko Ono

por edi cavalcante

Eu tinha a pretenção de escrever sobre os 60 de forma (quase) cronológica. Já não é fácil escrever sobre qualquer coisa e ainda ter de decidir entre escrever ou ficar doido (pelo menos era essa a impressão que eu tinha antes de começar a escrever sobre esse assunto, como já coloquei anteriormente), e ainda ter a infinita tarefa de escrever sobre os 60, ou qualquer que fosse a década, um assunto sem fim, de forma cronológica o tempo todo.

Decidi mudar esse enfoque porque hoje, ao passar por uma lata de lixo, havia um jornal “O Globo”, de 13.11.07, com uma foto na primeira página que me remeteu à capa do “Abbey Road”, o último álbum dos Beatles que saiu  em penúltimo.  Mas, ao virar a página depois de examinar a foto, no índice do jornal, havia um tijolinho com a seguinte notícia : “Arnaldo Jabor – colunista revela por que  nunca gostou de Yoko Ono – A arte da viúva de Lennon tem gosto de nada –segundo caderno – página 10″.

Na matéria ele escreve que conheceu Yoko ao mesmo tempo que John Lennon “ou quase”, em Londres em 1967, na semana do lançamento do álbum “Seargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, “que coloria todas as vitrines de King’s Road”. Alguém lhe falou sobre um ‘happening’ que aconteceria, ou melhor, um filme, chamado Botton, que mostrava imagens de bundas se movendo com entrevistas em ‘off’ de seus donos ou donas. ” O lado babaca dos anos 60 ali se manifestava : uma onipotência holística, mística, um amor geral proclamado a ‘tudo’, o exercício de um poder que não existia. Tudo aquilo era uma bobagem, um evento irrisório, diante da maravilhosa força dos Beatles lá fora, estourando naquele álbum-obra-prima, mudando o mundo real, dentro do mercado, dentro da vida concreta, longe das babaquices semi-religiosas que também rolavam na ‘swinging London’ “.         Ele diz que foi já nessa época que começou a não gostar de Yoko Ono. Acha que sua arte “não tem gosto de nada”. Ele acha que se ela tivesse procurado os Rolling Stones com seu papo conceitual, teria levado um pé na bunda de imediato do Keith Richards. “Mas os Beatles, mais românticos, mais bobos, deixaram entrar a víbora que os destruiria. Fálica, castradora.” Ele continua e escreve que à época, ” a Humanidade era dividida pelos jovens em : caretas e “muito loucos”, Beatles e Rolling Stones. “No entanto, ambos eram importantíssimos, pois furavam a parede boçal da cultura de massas, levando adiante uma arte superior”. Ele acha que foi assim que começou a corrosão dos Beatles. Ele se refere ao fato de o “Lennon perguntando como o Paul MacCartney podia dormir de noite (‘How can you sleep at night ?’), como se o grande Paul fosse um alienado, um direitista”. Ele dá sua opinião sobre arte conceitual e mais opiniões pessoais sobre a Yoko : “O que teria havido se os Beatles ficassem juntos mais tempo ? A esperança teria sido mais longa ? O romantismo psicodélico teria derivado para a caretice dos ‘Saturday Night Fevers’ com tanta facilidade nos anos 70 ? Por isso, nunca gostei de Yoko. E, ontem, li no jornal uma frase ótima de Daniela Thomas, depois da performance da viúva em SP: ‘Depois de ver tudo aquilo, entendi por que eu queria matar a Yoko na infância’. Eu também”, finaliza.

Eu acho que o envolvimento do John com Yoko foi a ‘pá de cal’ para o fim da banda. Mas é fato que após a morte do empresário Brian Epstein, eles básicamente tiveram de ‘virar advogados’, tendo que aprender a lidar com assuntos legais para defender seus interesses dos empresários espertos, com o dinheiro jorrando pelo ‘ladrão’ e péssimos contratos feitos desde a época de Brian que teriam de ser corrigidos. Muita droga e  processos intermináveis envolvendo a Apple minavam o relacionamento entre eles, divergências pessoais sobre quem deveria administrar os negócios (Lee Eastman ou Allen Klein), e aí vem Yoko e coloca uma cama com fones de ouvido para estar ao par das gravações e pior, palpitar ( com anuência de John, claro), no estúdio durante as gravações, para não ficarem longe um do outro naquela relação simbiótica, é foda. Ela fustigava e minava a relação entre eles através da influência que tinha sobre John, seu passaporte para o Olimpo e, ainda por cima, dar palpite sobre as decisões do destino da banda. George dizia que sua presença era negativa, emanava “vibrações negativas” e ficava distraindo John em plena gravação. É certo que a relação entre eles estava mesmo no fio da navalha, como no dia que durante uma sessão, George, cansado da interferência do Paul, levantou-se e foi embora. Yoko imediatamente pulou para a cadeira dele e ficou lá, dando seus gritos. Ela dizia ao John que ele era um gênio, maior que Picasso, que não precisava deles, que eles não eram nada. Peter Brown, desde o início com os Beatles e que “observava tudo discretamente, lembra por ocasião do fechamento da boutique da Apple, quando decidiram que todo o estoque seria distribuido gratuitamente, ‘” Yoko Ono revelou um lado ganancioso que não conhecíamos. Na noite anterior, sem dizer nada ao John, ela chegou em seu Rolls e encheu várias malas de roupas antes que as portas se abrissem – e antes mesmo que os Beatles fizessem suas escolhas”‘ ( v. The Beatles – A Biografia, Bob Spitz, Larousse). A obra dele é infinitamente maior que a dela. O fato de que ele, apaixonado, com sua biografia, deixou que ela cuidasse dos negócios enquanto ele ficava com as tarefas domésticas, me passa a impressão de que queria refazer sua vida de uma outra maneira, vivenciar com seu filho o contrário do que tinha vivido. Perguntaram a ela, durante uma  mostra recente na Alemanha,  sobre quem havia influenciado mais ao outro, respondeu que nenhum dos dois  influenciava o outro em seu trabalho pessoal.

Li “Grapefruit”, um livro de propostas da Yoko, nos anos 70. Eu gostei muito. Yoko fazia parte de um grupo artístico chamado “Fluxus”, movimento artístico experimental, em cujo manifesto, referiam-se a “realidade não-arte”, precursores do que se chama de Arte Conceitual. Na arte conceitual, fenômeno dos anos 60, o elemento mais importante é a idéia que está contida na obra, mais que a habilidade técnica de sua execução (ver “A Arte de Agora Agora” de Gregory Battock). O “conceito” é comunicado através de diversos meios expressivos como texto, mapas, diagramas, filmes, vídeo, fotografia, happenings, etc. As idéias expressas através do trabalho conceitual vêm da filosofia, feminismo, psicanálise, filmes ou atividades políticas. Também a paisagem, ‘land art’, ou arte ecológica.

Quanto aos Beatles serem caretas e os Stones ‘muito loucos’, não corresponde à realidade. Os Stones eram muito loucos sim, mas como pode serem os Beatles caretas, tanto quimicamente, quanto comportamental, quanto artísticamente? Keith Richards responde a essa questão quando um jornalista pergunta a ele justamente sobre esse assunto em uma entrevista, ele responde que “os Beatles eram tão cínicos quanto os Stones, mas que fazia parte da estratégia de seu empresário (dos Stones), criar slogans nos quais os Stones seriam os mal comportados e os Beatles os bonzinhos”. Mas na real, até as vésperas da separação dos Beatles, os Stones conduziam suas produções a partir dos lançamentos dos Beatles. Sua obra prima aconteceu apenas em 1972, “Exile on Main Street”. 

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