Beatniks

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Allen Ginsberg em foto de William S. Burroughs, N.Y., Outono de 1953

Nos anos 50 e início dos 60, “os beatniks desconstruiram os EUA macartista de ultra direita, careta, da guerra-fria”, como escreveu o poeta Cláudio Willer ( Folha de São Paulo, Ilustrada, 3 de março de 1984 ). Ian MacDonald conta em seu livro ” Revolution in the Head”, que os Beatniks “não eram os heréticos da Era Eisenhower, mas um verdadeiro preâmbulo de um futuro revolucionário”. Na verdade buscavam uma nova estética social e espiritual para o mundo. A consciência disso, só aconteceria mais tarde, mais precisamente depois que Allen Ginsberg leu “Uivo” pela 1ª vez aos 29 anos em 1957 em San Francisco. A partir daí, tornou-se muito visível o interesse das livrarias em fazer saraus, leituras de poemas, novas publicações. Foi por esse tempo que Beatniks acontece como Movimento.

William Burroughs ficou mais famoso e influente dessa geração Beat Generation, mas sua primeira publicação “The Naked Lunch”, 1959, ocorreu depois de “O Uivo”, Allen Ginsberg, 1956, e de “On The Road”, Jack Kerouac, 1957, digamos, a trilogia básica dos Beatniks que torna-se espontaneamente um movimento literário, libertário e cultural, por força da gênese revolucionária de seus componentes. Vários poetas beats eram adeptos da prática do Zen, uma filosofia cuja estética diferia diametralmente do “american way of life”. Antes de ser uma referência musical, é mais voltado para literatura. O nome da Geração Beat refere-se na realidade, mais em um sentido de ser escorrachado (beated) pela vida e jogado nas margens do deserto de uma civilização materialista, e marcados pelo isolamento social. Beat + Nik, isto é, sufixo de Sputnik ( o satélite soviético), uma provocação em pleno Macartismo e Guerra Fria, uma subversão de valores. Classe média em sua maior parte, os beats eram vagabundos visionários alienados pela sociedade. “On the Road”, na estrada, tanto literariamente quanto metafóricamente.  E literalmente. Primos americanos dos Existencialistas – cuja enigmática postura levou John Lennon e Paul McCartney a Paris em 1961 e ao fascínio pelos ‘Exis’ alemães, que conheceram em Hamburgo – eles eram menos preocupados com a integridade do ser, do que com transcendência dos limites pessoais, buscando por algo além da experiência da rotina do dia-a-dia. Jack Kerouac (abaixo, com Neal Cassady) começou a escrever “On The Road” em 1951, o famoso manuscrito onde Sal Paradise, seu alter-ego, atravessa o país com quase nenhum dinheiro por várias vezes, com seu companheiro aprendiz de escritor Dean Moriarty, na verdade Neal Cassady, ex menino de rua, tão maluco quanto seu personagem no livro.

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Para levantar algum troco, já que partiu (1ª viagem) com apenas US$ 50 para uma viagem ‘coast-to-coast’, Paradise fez bico com trabalhos que iam desde segurança a colhedor de algodão.  Inspirou várias gerações de mochileiros, caroneiros, motoqueiros ou que utilizavam outros tipos de transporte por terra. Eles eram contra o materialismo entorpecedor ( “Moneyteísmo”), contra os depressivos aprovados pela sociedade (álcool, barbitúricos). A favor da imaginação, da auto-expressão, Zen, maconha, anfetaminas e mescalina. Contra o racionalismo, a repressão, o racismo. A favor da poesia, do sexo livre, jazz. Sua trilha sonora passava por músicas como “The Hunt”, Dexter Gordon e Wardell Gray; “Lover Man” e “Close Your Eyes”, Billie Holiday; “C-Jam Blues”, Slim Gaillard e “Congo Blues”, Dizzy Gillespie (v. Thiago Momm, F.S.P., 8.02.07, em matéria especial sobre comemoração de 50 anos da publicação de “On The Road”, 1957). Eles eram as autênticas vozes religiosas da “Era Atômica”. Influenciaram a contracultura dos anos 60 na Califórnia e em Nova York, alcançando também a Inglaterra, – especialmente os poetas de Liverpool, – com seus versos em estilo livre e improvisados. Seus expoentes eram Allen Ginsberg, Gregory Corso, Neal Cassidy, Jack Kerouac, William Burroughs (abaixo, autor de “The Naked Lunch”, entre outras obras) em N. York.

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E Gary Snyder (“Velhos Tempos”, L&PM), Ferlinghetti, Lamantia, McClure, Whalen, do grupo “Renaissance” de San Francisco, mais a adesão do grupo “Black Mountain”, Creeley, Duncan, Olson. Eles eram os EUA do sexo, das drogas, do rock, da poesia. Eles são a geração que antecipou a contracultura e os hippies. E de certa forma, como Henry Thoreau (“Desobediência Civil” e “Walden ou A Vida nos Bosques”), só que nas cidades.

No Brasil, especialmente em São Paulo, Cláudio Willer, Roberto Piva, Roberto Biccelli, Décio Bar, Fransceschi, os poetas malditos  da década de 60, atravessam um tempo com o propósito transgressivo dos surrealistas, dadás e beats. Pode-se dizer que abriram uma estrada para o ‘abismo’ desconhecido em que se deve mergulhar. E como os beatniks, tiveram o seu macartismo nos dois extremos da linha, a partir do golpe militar de 1964.

Em uma extensa lista de poetas, citarei apenas dois. Entre muitas outras publicações, “Paranóia”, de Roberto Piva, 1963, Massao Ono editor, Fotografias de Wesley Duke Lee, é um marco na Geração dos Novíssimos. Foi reeditado recentemente pelo Instituto Moreira Salles, conforme o original.

Cláudio Willer,  lançou “Geração Beat”, Série Encyclopaedia, Coleção L&PM POCKET, 2010. Sua primeira publicação remonta a 1964, com “Anotações Para um Apocalípse”, com prefácio de Roberto Piva.

Veja mais : http://www.revista.agulha.nom.br/ag34willer.htm

2 Respostas to “Beatniks”

  1. luis carlos o. barbosa Says:

    impressões
    belas expressões
    uma vez realizadas
    subterrâneas extraordinárias
    para sempre serão memórias

  2. regina augustarangel valério Says:

    blog ótimo para conhecer mais sobre os beats… li à pouco em comentários em um outro blog que eles eram machistas,perdidos, entre outros adjetivos. Só que para um ” adocicado” como o próprio comentarista se denominou, provavelmente não faça sentido a cabeça conflitante que algumas pessoas trazem. Gosto muito do texto beat. Não idolatro – os , mas não de se negar que a explosão criativa veio exatamente da marginalidade de suas origens.

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