Guerra Fria e… Bossa Nova

A Guerra Fria, iniciada no pós-guerra, em 1948, chegou ao paroxismo em outubro de 1962.

Fotografias aéreas de grande altitude feitas por aviões espiões U2, mostravam rampas de lançamento de foguetes em território cubano (foto acima), e por conta disso, John Kennedy, presidente dos EUA, depois de comprovadas de forma incontestável a carga dos navios que navegavam próximo ao Caribe, determinara um bloqueio naval à Cuba, interceptando o caminho da frota soviética.

Esse evento foi o estopim do momento mais crítico, mais próximo de uma conflagração nuclear. Depois de muita tensão Nikita Kruschev, Secretário Geral da URSS, recuou, em troca de os EUA não invadir Cuba e “mais uma promessa secreta de retirar os mísseis norte-americanos da Turquia em algum momento do futuro”.

Hoje sabe-se, segundo dossiê de 2,7 mil páginas (feitos a partir de apontamentos de Robert F. Kennedy, Procurador-Geral de Estado) que a Crise dos 13 Dias, culminando no dia 27 de outubro de 1962, o “Sábado Negro”,  foi considerado “o momento mais perigoso da história da Humanidade”, afirma a NSA (National Security Archive). E o Brasil, então governado por João Goulart, participou do esforço diplomático secreto para evitar a tragédia. Seria o portador de mensagem a ser enviada a Fidel Castro pelo Departamento de Estado, antes de um ataque à ilha. Mas Nikita Kruschev cedeu antes da chegada do enviado brasileiro. (Agência EFE, 13.10.12)

Esse episódio foi determinante para um esforço entre a ONU e as duas superpotências para a diminuição do número de ogivas nucleares, de maior aproximação e diálogo, e a criação de ações de segurança para evitar uma catástrofe.

Timothy Leary, o papa do LSD, achava que a contracultura nasceu nessa que foi chamada de a crise dos mísseis, os 13 dias que abalaram o mundo. Tal era a situação que faz certo sentido. Melhor curtir químicamente induzido que esperar pela hecatombe. Isso sem falar nas várias vêzes que por acidente, falha humana, por pouco, muito pouco, o botão não foi disparado. Esse era o pano de fundo da época. Além dessa ameaça nuclear, o ‘tempo estava esquentando’. O apartheid nos EUA e na África do Sul, a Guerra do Vietnã prestes a iniciar sua escalada, repressão política na América Latina e no Leste Europeu. Kennedy foi o presidente mais jovem da história dos EUA até então.

By Antony Bridle

Sua imagem jovial e propostas de campanha, transmitiam uma aura de otimismo no início da década. Porém, em 22 de novembro de 1963, em pré campanha pela reeleição, Kennedy foi assassinado em Dallas, Texas, reduto republicano, às 12:30 hs. local, enquanto desfilava em carro aberto. A decisão de ir contra a vontade do Serviço Secreto, que recomendara cautela e um carro fechado, foi totalmente imprudente. Foram 3 tiros. Morreu sem saber. Nem sequer teve tempo de seu rosto mostrar alguma expressão de perplexidade ou de seus lábios se mexerem em algum murmúrio. Não, nada, apenas pedaços do cérebro que explode e que Jacqueline tenta pegar (no alto), em um reflexo desesperado de montar as pecinhas e trazê-lo de volta à vida.

60, Kennedy, última foto antes de ser morto

Kennedy, segundos antes de ser atingido – Associated Press, 1963                                                              

Seu suposto assassino, Lee Harvey Oswald, de 24 anos, foi preso às 13:45 hs e nunca confessou o crime, e não teve tempo de ir a julgamento porque foi morto 2 dias depois por Jack Ruby quando estava sendo levado da cadeia para uma sala de interrogatórios. Este, por sua vez, teve ligação com a Máfia, e disse em uma gravação que ninguém jamais saberia o que de fato ocorreu. Muito mistério ainda paira sobre o assassinato de Kennedy, e há a hipótese de um 2º atirador, para haver alguma lógica nos traçados das balas, a chamada ‘bala mágica’ ou ‘evidência 399’. Prenderam os atiradores, mas presume-se que não se sabe quem pagou a bala, que é o mais importante a saber numa investigação de atentado político. As investigações não foram conclusivas. Cerca de 20 testemunhas foram assassinadas desde então até 1977. Muitos dizem ter sido a Máfia, a responsável pela morte de Kennedy, como uma vingança contra Bob Kennedy, irmão de JFK, Promotor Federal, que estava determinado a colocar o chefão mafioso atrás das grades. Mas ele não cedeu, mesmo após a morte do irmão. Não demorou muito, também foi morto. Mas ninguém sabe ao certo a verdade. Não se pode negar um dedinho (força de expressão) republicano aí, e também do lobby dos fabricantes de armas, mesmo que a Máfia, CIA ou FBI tenha feito o serviço sujo. Lyndon Johnson, vice-presidente, também Democrata, assumiu. Foram 3 balas que deram início aos anos 60.

Foi um golpe traumático que ultrapassou as fronteiras americanas. Esse trauma, para muitos analistas, seria substituído pelo impacto causado pelos Beatles, porque ainda em novembro foi lançado o hit que explodiria nas paradas norte-americanas, “I Want to Hold Your Hand“, e que preparou o terreno para a ”The First US Visit“, que aconteceu em fevereiro de 1964 e a British Invasion liderada por eles. Pode ser que tenha sido isso, mas seu humor irreverente somado a um estilo musical inovador contribuíram para mudar o foco da dor paralisante. Antes dessa música, apenas 2 hits britânicos alcançaram o top 1 nos Estados Unidos, e totalmente desconhecida da maioria dos brasileiros : Acker Bilk, com “Stranger on the Shore” e, essa bem mais conhecida, “Telstar”, com The Tornados, de1962.

No Brasil, a virada dos 50 para os 60 aconteceu com a eleição de Jânio Quadros, na recém inaugurada novacap, Brasília. E sua renúncia. O que desencadeou um efeito dominó na política brasileira que levou ao golpe militar de 1964. Havíamos ganho nossa segunda Copa do Mundo, em 1962, no Chile. E a Bossa Nova ainda estava no auge. Seus expoentes eram Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão, João Gilberto, Carlinhos Lyra, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Johnny Alf, Garoto, Laurindo de Almeida, Valzinho e João Donato, entre outros.

Galeria de Fotos – Precursores, músicos, autores, intérpretes

Garoto

Valzinho

Laurindo de Almeida e Garoto

Luís Bonfá

João Donato

Johnny Alf

Roberto Menescal

Carlinhos Lyra

Ronaldo Bôscoli

Sérgio Ricardo

Chico Feitosa

Baden Powell

Tom Jobim

Vinícius de Moraes

João Gilberto

Newton Mendonça

Nara Leão e Vinícius de Moraes

O surgimento da Bossa Nova, que é considerado agosto de 1958, com o lançamento do compacto “Chega de Saudade” e “Bim Bom”, de João Gilberto, – que já havia gravado com Elizete Cardoso, “Canção do Amor Demais”, de Vinícius de Moraes, e considerado um dos maiores discos da história da música brasileira – tem seu grande marco em 1959 com o LP “Chega de Saudade”. É o disco que gera uma revolução de acordes dissonantes que tinha como foco irradiador a zona sul carioca. Em 1960 saiu mais um disco de João Gilberto,  ” O Amor, o Sorriso e a Flor”. E em 1962, a Bossa Nova é introduzida com muito sucesso nos EUA por Stan Getz, com Tom Jobim, João Gilberto e Astrud Gilberto, presentes no Carnegie Hall, New York, em uma noite patrocinada pelo Itamaraty. Afinal, Desafinado, vendeu cerca de um milhão de cópias nos EUA, o que não é pouca coisa para uma música estrangeira em um mercado super competitivo. Nara Leão, era a musa da Bossa Nova, e depois, da MPB. No começo, ela reunia em sua casa músicos e compositores que eram a base, o genes da Bossa Nova. Em 1963, um projeto da CPC, Centro popular de Cultura, da UNE, propunha uma visão mais popular e nacionalista em relação à nossa cultura, e  Carlinhos Lyra, sensibilizou-se a essa idéia. Junta-se a compositores como Cartola, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Zé Keti, ‘compositores do morro’ e João do Vale (Carcará).  Com certeza estava acontecendo um tempo efervescente no Rio de Janeiro. Aconteceu que em 1964, com o golpe militar, uma crise ética, estética e social dividiu os artistas porque era exigido um posicionamento entre ser engajado ou alienado. Quer dizer, a bossa nova passou a ser música de alienados para alienados. Geraldo Vandré dizia que a música tinha de ser engajada. (“Mas os gênios da bossa nova nem deram bola e seguiram seu caminho – não deixando de ser menos libertários e ousados por causa disso. Na verdade, sua música permanece eterna enquanto as ‘canções de protesto’ daquela época soam enfadonhamente datadas”. v. Eduardo Bueno in Brasil : Uma História, pg 387. Editora Ática). Surgiram as canções de protesto. O paradoxo, é que a Bossa Nova foi a mola propulsora que mudou todo o panorama da música brasileira, tornando-a novinha em folha, influenciando inclusive os novos movimentos que aconteceriam ainda nessa década e décadas posteriores no Brasil e no mundo. A fase ortodoxa da Bossa Nova seguiu até 1965, com uma nova geração surgindo, como Edu Lobo, Marcos Valle, Francis Hime e Joyce. ( Em 1964, um levantamento do BIRD – Banco Interamericano de Desenvolvimento – chegou à conclusão que o Brasil precisaria de cem milhões de dólares para urbanizar e criar estruturas sociais nas favelas do Rio de Janeiro. Não investiu nada. Teria ficado barato. Deu no que deu). Ainda em 1963, foi lançado  o que seria um dos mais importantes discos da história da música popular brasileira, “Samba Esquema Novo”, de Jorge Ben (hoje Benjor). Em 1964 Nara Leão lança “Nara”, um disco que é também considerado um marco, porque é protótipo das mudanças que estavam prestes a ocorrer no cenário musical brasileiro, ao unir no mesmo disco, expoentes da Bossa Nova, como, Carlinhos Lyra, Vinícius de Moraes e Baden Powell, com ‘compositores do morro’, Cartola, Zé Keti e Nelson Cavaquinho. Representa o movimento de revalorização do samba que surgiria na MPB.

Cartola

Zé Keti (Alcyr Cavalcanti)

Nelson Cavaquinho

Cena do filme “Nelson Cavaquinho”

de Leon Hirszman

Com o golpe militar de 31 de março de1964, a música tinha que ter participação, mobilização política, música de protesto. A tensão gerada pelo golpe, pela repressão e pela censura, foi geradora de uma resistência muito criativa, em linguagem e provocação. Em dezembro de 1964, Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, e Paulo Pontes produziram o show “Opinião”, ( música de Zé Keti), dirigido por Augusto Boal. Foi o 1º espetáculo de música em que os participantes cantavam uns para os outros, como se fosse uma cena de teatro. Nara Leão (abaixo) havia rompido com a Bossa Nova, e isso ficou claro no disco que lançou, “Opinião de Nara”, que serviu de base para a montagem do show “Opinião”.

10 Discos Fundamentais da Bossa Nova (fonte: UOL – Clique Music)

– João Gilberto – Chega de Saudade – 1959 ; Tamba Trio – Tamba Trio – 1962 ; Antonio Carlos Jobim – The Composer of Desafinado plays – 1963 ; Sylvia Telles – Bossa, Balanço, Balada – 1963 ; Carlos Lyra – Depois do Carnaval – 1963 ; Stan Getz e João Gilberto – Getz/Gilberto – 1964 ; Nara Leão – Nara – 1964 ; Wanda de Sá – Vagamente – 1964 (Considerado o disco-símbolo da 2ª fase da Bossa Nova, porque junta a nova geração de compositores, como Marcos Valle, Francis Himes, Nelson Motta e jovens músicos como, Eumir Deodato, Tenório Jr. e Menescal, que também produz o disco) ; Roberto Menescal – A Nova Bossa Nova de Roberto Menescal e seu Conjunto – 1964 ; Marcos Valle – O Compositor e o Cantor – 1965

5 Respostas to “Guerra Fria e… Bossa Nova”

  1. taciane Says:

    acho q tudo isso è legal, ensina o q aconteceu na decada de 50

  2. Manda Mais Grande
    A fotoO Tah Pequena
    TA boOm Mais TaH Bom

  3. Samir Says:

    Lindo . Adorei tudo isso que li .

  4. Johnson era democrata como Kennedy. Onde já se viu presidente democrata com vice republicano?

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