No começo

O início dos anos 60 não dava a menor impressão de que seria um tempo de grandes mudanças culturais. Estava de certa forma tedioso. Nada de novo no front. Eu falo em termos de rock’n’roll ou de algo que soasse novo. Eu tinha 13 anos e nem sabia da existência de John Coltrane, por exemplo, de jazz West Coast, de Chet Baker ou de Miles Davis, que acabava de lançar sua obra-prima “Kind of Blue”.  Nos EUA o jazz e o R&B eram a corrente mais criativa. E ainda, Ray Charles, Frank Sinatra… A década de 60 começou careta e terminou em desbunde. As músicas que faziam sucesso eram cantadas pelos artistas que viraram os anos 50, sendo que a nata das promessas estava praticamente fora de combate. Ainda nos anos 50, na Inglaterra, a reeleição dos Conservadores, coincidiu com o colapso da rebelião do rock’n’roll nos EUA.

– Bill Halley e seus Cometas, – que foram os primeiros a colocar um hit de rock and roll ( (We’re Gonna) Rock Around the Clock ) no top 1 em 9 de julho de 1955 na Billboard, por 2 mêses -, não tinha mais o mesmo impacto nem energia sobre os jovens que queriam ouvir algo diferente do que ouviam seus pais.

– Em 1957, Little Richard tornou-se religioso e renegou a “música do diabo”.

– Em 1958, Elvis Presley (foto acima) foi convocado, permanecendo no exército até 1960 em uma base norte-americana na Alemanha.

– No mesmo ano, Jerry Lee Lewis, em turnê pela Inglaterra, teve sua carreira devastada ao vir à tona a notícia (em entrevista coletiva ao chegar em Londres) de que era casado com sua prima de 2º grau e de apenas 13 anos de idade, Myra Brown.

– Em 1959, Buddy Holly, Richie Valens e The Big Bopper, morreram em acidente aéreo.

– Ainda em 1959, Chuck Berry foi condenado a 2 anos de prisão por tentar levar uma menor para além dos limites do Estado.

– Em 1960, Eddie Cochran morreu em acidente de carro, no qual Gene Vincent ficou gravemente ferido.

Elvis, Paul Anka, Neil Sedaka, Ben E. King, faziam sucesso nesse comecinho de década. Elvis manteve sua coroa de rei do rock e sua legião de fãs. Em fevereiro de 1962, seu single “Rock-A-Hula Baby”, com “Can’t Help Falling in Love” no lado B, alcançou o Top 1 na Inglaterra. O mundo começava a conhecer Bob Dylan, o único que, pode-se dizer, rivalizou com os Beatles na liderança de tendências revitalizadoras, com letras inspiradas nos poemas beats e raízes country & blues, folk songs, que a princípio foram chamadas de protest songs, mas que ele chamava de ‘canções temáticas’. Peter, Paul & Mary, fizeram sucesso cantando músicas do Dylan, assim como  Joan Baez, certamente uma musa e fazia também enorme sucesso com suas canções folk e era muito próxima a Dylan. Tornou-se amiga do Lennon também, já na 1ª USA Visit. Já em fevereiro de 1964, os Beatles apareceram pela 3ª vez no Ed Sullivan Show, abrindo as portas da América para a Invasão Britânica.

Esse era o panorama lá fora. Em Pindorama, estávamos embalados pela Bossa Nova, que trazia calor, beleza, que retratava um estilo de vida e muita beleza musical. Vivíamos um tempo criativo, com as praias cariocas, principalmente Ipanema e Búzios dando o tom (sem trocadilho). João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Morais, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Nara Leão, Baden Powell, Agostinho dos Santos, Tamba Trio…E estava para chegar um disco fundamental: “Samba Esquema Novo”, 1963, do Jorge Ben (Jorge Benjor).

Depois da Bossa Nova foi o primeiro acontecimento musical mais importante na discografia nacional,  pelo seu ineditismo e vigor criativo, simples e complexo ao mesmo tempo. Depois, o caldeirão da MPB continuou gerando obras tão geniais quanto essa.

Nosso rock estava engatinhando ainda em fase de versões que faziam sucesso com Celi Campelo, seu irmão Toni Campelo, Ronnie Cord, Sérgio Murilo e outros. Mas já começavam a despontar Tim Maia, Roberto Carlos, Erasmo Carlos. Nos bailinhos tocava muita música italiana, como Pepino di Capri, Pino Donaggio, Nico Fidenco… Música francesa também, Gilbert Bécaud, Charles Aznavour e a lindíssima e ‘cool’ Françoise Hardy, entre outros. Mas na Inglaterra, ainda com ares vitorianos – onde uma revolução cultural estava ainda em seu estado de larva (as bandas de Liverpool invadiram Hamburgo no rastro dos Beatles) e ninguém desconfiava do que estava para acontecer. Seu maior ídolo era Cliff Richards. Se fosse escolher uma cor para a época, seria cinza. O rock inglês iria destronar o jazz e o R&B na preferência dos jovens. A Guerra Fria, uma queda de braço entre os EUA e a URSS galgava picos muito perigosos. O relógio que determinava a proximidade do cataclisma nuclear estava a apenas 1 minuto da hora H, ” The Eve of Destruction”, uma war song e o one hit wonder de Barry Mcguire. A letra desta canção não é exagerada, é real. Hoje as ameaças de guerra nuclear total são menores, mas agora tendem a ser localizadas. Para quem não conhece e nem nunca ouviu falar dessa canção, seguem 2 estrofes, só para ter uma idéia.

” The eastern world it is explodin’ / Violence flarin, bullets loadin’ / You’re not enough to kill but not for votin’ / You don’t believe in war, what’s that gun you’re tottin’, / And even the Jordan River has bodies floatin’, / But you tell me over and over and over again my friend, ? you don’t believe we’re on the eve of destruction.

Don’t you understand, what I’m trying to say ? / Can’t you see the fear that I’m feeling today ? / If the button is pushed, there’s no running away, / There’ll be none to save with the world in a grave, / Take a look around you, boy, it’s bound to scare you, boy, / But you tell me over and over and over again my friend, /Ah, you don’t believe we’re on the eve of destruction. “

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