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Verão do Amor – Monterey Pop

Posted in Década de 60 on 02/09/2008 by edi cavalcante


 

Monterey, cidade de 26.000 habitantes na época, situada a 160 km ao sul de San Francisco, Califórnia, foi o local escolhido para o 1º mega festival de rock da história, inspirado nos festivais de jazz que aconteciam desde 1958 e que atraia nomes como Billie Holiday e Modern Jazz Quartet. Aconteceu entre os dias 16 a 18 de junho de 1967, em pleno Verão do Amor, e que atraiu um público de 200.000 pessoas, o dobro da expectativa, sendo que 60.000 pessoas compareceram ao festival, um dos principais eventos do Movimento Hippie, que teve seu pico no Festival de Woodstock, em 1969, na costa leste dos EUA.

1967 foi o ano em que o Rock Psicodélico dominou o mundo. E quando se fala em estética psicodélica, se fala do Movimento Hippie. O auge desse estilo aconteceu com o Sgt. Pepper’s (Beatles, 1 de junho de 1967, 15 dias antes do início do festival), que foi o 1º álbum conceitual top 1 no mundo; o Pinky Floyd com “The Pipper at the Gates of Dawn” (1967); o Jefferson Airplane que lançou “Surrealistic Pillow” e ainda, Merry Pranksters, Jimi Hendrix Experience, Janis Joplin, The Doors. Essa fase musical está associada à cultura oriental, música clássica indiana, drogas (principalmente Cannabis e LSD), até Música Concreta (Kalr-Heinz Stockhausen). Esses componentes influenciaram Beatles (v. “Norwegian Wood”, para o Rubber Soul de 1965 e “Tomorrow Never Knows”, para o Revolver, de 1966), The Rolling Stones “(Paint it Black”, 1966), Frank Zappa and The Mothers of Invention (Freak Out), Pinky Floyd e Grateful Dead (Anthem of the Sun). Por falar em Grateful Dead, consta que quando ainda tinham um perfil folk, foram os primeiros a dar um passo na direção da psicodelia com o nome Mother McCue’s Uptown Jug Champions, em San Francisco. Com influência de Beatles e Byrds, trocaram os instrumentos acústicos pelos elétricos em 1965, e mudaram o nome para Warlocks. Depois disso encontraram os Merry Pranksters e Ken Kesey, um ícone da geração hippie, em novembro de 1965 e em dezembro de 1965 mudaram o nome para Grateful Dead.  A primeira banda a utilizar o termo ‘psicodélico’ na música pop foi também uma banda folk, The Holy Modal Rounders, em 1964, com “Hesitation Blues”. No rock, os primeiros foram a banda 13th Floor Elevators, e The Deep, com o álbum “Psychedelic Moods” em setembro de 1966. Depois vieram “Psychedelic Lollypop” do Blues Magoos, banda da Califórnia, e “The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators”. Os primeiros a tocarem sob o efeito de LSD foram The Charlatans, banda de San Francisco, em 29 de junho de 1965, no Red Dog Saloon, em Virginia City, Nevada, USA. E os primeiros a mencionarem o LSD foram os The Fugs em “I Coudn’t Get High”. O primeiro single psicodélico foi “Sunshine Superman” , do Donovan, também de 1965.

Barco e montanha, Peter Max

Apesar de que a maioria dos que entraram não tivesse convite, o festival teve uma arrecadação de US$ 200.000, destinados a instituições beneficientes. Contribuiu para isso o fato de que todos os artistas tocaram de graça, com exceção de Ravi Shankar, porque já havia sido contratado antes ainda de decidirem tornar o festival beneficiente. No espírito de paz e amor, tudo transcorreu sem problemas durante os 3 dias que durou, com boa organização, comida e bebida e acomodações para todos. O The Monterey Internacional Pop Festival foi organizado por John Phillips, dos Mamas and the Papas, pelo produtor da banda Lou Adler e um quadro de organizadores formado por Mick Jaegger, Paul MacCartney, Brian Wilson, Donovan, Roger McGuinn (The Byrds), Paul Simon, Johnny Rivers, Alan Pariger e Derek Taylor. Um dos fatores que garantiu o alto astral é que a segurança do evento foi feita por hippies da comunidade. Segundo McGuinn ( ver entrevista na F.S.P., Ilustrada, para artigo de Rubens Leme da Costa e Rogério Ortega em 16.07.97, por ocasião dos 30 anos do festival), a principal lembrança de Monterey “…foi a felicidade e a comunhão. Foram 3 dias incríveis, o público misturado com os artistas, além da música. Hendrix, Janis, Otis, meu Deus, foi incrível”. Na mesma entrevista diz que foi Paul MacCartney quem insistiu para que Hendrix tocasse no festival “vocês precisam ver esse cara ao vivo. Ele é selvagem”. Foi em Monterey que foram revelados Jimi Hendrix e Janis Joplin, a ainda desconhecida vocalista da banda Big Brother & The Holding Company. Tocaram, pela ordem :

16 de junho – The Association ; The Paupers (banda canadense) ; Lou Rawls ; Beverly ; Johnny Rivers; The Animals ;

Simon & Garfunkel

17 de junho – Canned Heat ; Janis Joplin com Big Brother & The Holding Company ;

Country Joe & The Fish ; Al Kooper ; The Butterfield Blues Band ; The Eletric Flag ; QuickSilver Messenger Service ; Steve Muller Band ; Moby Grape ; Hugh Masekele ; The Byrds ;

Laura Nyro ; Jefferson Airplane ;

 Booker T & The MG’s ; Otis Redding (foto abaixo de Janis).

18 de junho – Ravi Shankar ; The Blues Project ; Big Brother & The Holding Company ; Jimi Jendrix Experience ; The Group With No Name ; Buffalo Springfield ; Scott McKenzie ;

 The Who ; Grateful Dead ; The Mamas & The Papas.

Jimi Hendrix

As grandes ausências óbviamente foram os Beatles (havia rumores de que fariam apresentação relâmpago, logo desmentidos. Ainda estavam ressabiados por causa dos problemas enfrentados em 1966, por conta da reação à entrevista do Lennon); os Rolling Stones (por causa da prisão por drogas do Mick Jaegger e do Keith Richards), e Bob Dylan, que havia sofrido um acidente de moto. Também foram convidados e não compareceram, os Beach Boys, Captain Beefheart & The Magic Band, The Kinks, Donovan (ambos por não conseguirem vistos para entrar nos EUA) e o Cream, porque o Eric Clapton estava pretendendo estrear o Cream em grande estilo. Mas mesmo com as performances arrasadoras de Hendrix com o Experience, quando ateou fogo na guitarra ( a 1ª guitarra – Fender Stratocaster 1965 – incendiada do J. Hendrix aconteceu em março de 1967, no Finsbury Astoria, Londres, e foi leiloada em 4 de setembro de 2008, em Londres, por US$ 470.000) ao final de “Wild Thing” (dos Troggs); do Who com a quebradeira de Pete Townshend; dos hinos “Somebody to Love” (Jefferson Airplane) e “San Francisco” (Scott McKenzie), consta que quem incendiou mesmo a platéia foi Otis Redding (que substituiu os Beach Boys a poucos dias do festival começar), com interpretações maravilhosas de “Shake”, “Satisfaction”, “Respect” e “Try a Little Tenderness”, acompanhado pelo lendário guitarrista Steve Cropper e a banda Booker T. & The MG’s. Como disse Brian Jones, dos Rolling Stones (abaixo, com Nico, do Velvet Underground, no Monterey Pop), em lágrimas, após a apresentação de Otis : “Nem por 1 milhão de dólares subo no palco depois de um show de Otis Redding”.

Poucos meses depois, em 10 de dezembro de 1967, Otis com apenas 26 anos, morreria em acidente aéreo, quando o avião em que viajava caiu no Wisconsin. E Brian, 2 anos depois, em condições misteriosas.

O clima do festival era tão bom, que o chefe de polícia de Monterey, Frank Marinello, dispensou metade do efetivo policial antes do evento terminar. Afirmou nunca ter visto multidão tão pacífica. De certa forma, Monterey foi o balão de ensaio de todos os festivais e megashows que aconteceram desde então, embora nenhum com sua magia, e também porque introduziu no programa possibilidades mais abrangentes ao convidar artistas de culturas desconhecidas e diferentes (Ravi Shankar, da India, que já havia gravado com os Beatles, e Hugh Masekela, da Africa do Sul), o que se chama hoje de “world music”. Uma boa definição do que ocorreu foi dada pelo jornalista Stephen K. Peeles, que disse : “Foi a colisão do ‘stablishment’ corrupto com a contracultura emergente, sem feridos”. A frase impressa nos convites dizia : “Use flores, seja feliz, traga sinos. Teremos um festival”.

Hippies

Posted in Década de 60 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 07/08/2008 by edi cavalcante

 

Os Hippies, junto com a Nova Esquerda e o Movimento dos Direitos Civis, são o tripé daquilo que ficou conhecido como Contracultura.

A palavra ‘Hippie’, – de hip, hipsters, que vem de hep, que quer dizer, estar por dentro, descolado, bacana, – saiu na imprensa pela 1ª vez, no artigo “A New Haven For Beatniks”, em 5 de setembro de 1965, assinado pelo jornalista de San Francisco, CA., Michael Fallon. Nesse artigo ele escreve sobre o “Blue Unicorn”, um coffee house, usando o termo hippie para se referir à nova geração de beatniks que se mudaram de North Beach para Haight-Ashbury, distrito de S. Francisco. Mas tornou-se massificado pela mídia a partir de 1967, depois que o colunista Herb Caen, do “Crônica de S. Francisco”, passou a se referir a hippies, em suas colunas diárias. Segundo Malcolm X, a palavra hippy, que aparece na língua Wolof do oeste africano, tem reminiscências no fim dos anos 40 no Harlem e era usado para descrever um tipo específico de ‘branco’ que age de forma mais ‘negro’ que os negros. Porém, suas raízes remontam aos filósofos gregos Diógenes de Sinopes (e os Cínicos) e Epícuro de Samos.

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Diógenes de Sinopes ( 413 a.C. – Sinop, hoje na Turquia), é o maior representante do cinismo. Ele desprezava a opinião pública, e seus únicos bens eram um alforge, um bastão e uma tigela (que simbolizavam o desapego e a auto-suficiência perante o mundo). A felicidade, entendida como auto-domínio e liberdade espiritual, era a verdadeira realização de uma vida. Defendia a liberdade sexual total, a igualdade entre homens e mulheres, a supressão das armas e da moeda, entre outras coisas.

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Epícuro de Samos (341 a.C. – Atenas – discípulo de Diógenes), dizia que ser feliz era mais barato do que se pensa. Considerava que a busca da felicidade e do prazer estavam condicionadas ao domínio sobre as emoções e sobre si mesmo, e elegeu 3 questões principais frugais para alcançar a felicidade. 1. Amigos – não apenas tê-los, mas conviver com eles. Comprou uma grande casa, convidou um monte de amigos para morar juntos e assim, foi um precursor da vida em comunidade. 2. Liberdade pessoal – sem dependência de patrões cruéis. Independência em relação ao consumismo, e, 3. Auto-reflexão, encarar as questões que incomodam de frente, analisá-las com sinceridade e resolvê-las. Paradoxalmente, sofria de cálculos renais.

As influências também passam pelas idéias de Jesus Cristo, Buda, São Francisco de Assis, Krishna, Gandhi, Henry David Thoreau (“Walden ou A Vida nos Bosques” e “Desobediência Civil”), Walt Whitman (“As Folhas da Relva”) entre outros. Em 1890, inspirados nas obras de Nietzche, Herman Hesse e Eduard Baltzer, jovens alemães iniciaram um movimento de volta à natureza, abandonando seus status sociais e buscando valores espirituais pagãos que tinham raízes em seus ancestrais. Com a imigração alemã para solo norte americano, décadas depois, surgiu a 1ª loja de produtos naturais, mais saudáveis, no sudoeste da Califórnia, onde puderam praticar um estilo de vida mais alternativo em um clima mais ameno. Jovens americanos influenciados por esse estilo de vida criaram um grupo chamado “Nature Boys” e se fixaram no deserto californiano. Esse movimento tornou-se popular em 1947 quando Nat King Cole gravou uma canção “Nature Boy” *,

 de autoria de Eden Ahbez, abaixo, um dos integrantes do grupo.

Remanescentes desse grupo, incluindo o famoso Gipsy Boots, foram para o Norte da Califórnia em 1967, bem à época do Verão do Amor, San Francisco. Também o movimento jamaicano Rastafari, propunha volta à natureza e volta às raízes filosóficas africanas. Na década de 50, por causa da imigração em larga escala de jamaicanos para a Inglaterra, influenciou o desenvolvimento do movimento hippie inglês com contatos que permitiam aos jovens brancos comprar cannabis das comunidades negras.

O Verão do Amor, 1967, em S. Francisco, a capital dos hippies, foi um evento que atraiu 200.000 pessoas e um consumo inacreditável de LSD. Allen Guinsberg (“Uivo”), Jack Kerouac, (“Pé na Estrada”), os ‘beats’ novaiorquinos entre outros,  que já haviam chegado à S. Francisco na década de 50, criaram um reduto inicialmente em North Beach. Eles foram os precursores dos ‘hippies’, estes, porém, abraçaram o rock como música oficial, o rock que veio da Inglaterra e que re-eletrificou a música norte-americana.

“Se você for a San Francisco, não deixe de colocar flores em seus cabelos”, dizia a canção de John Phillips, dos Mamas & The Papas, cantada por Scott Mackenzie.

Conceitos como paz, amor, liberdade sexual, maconha, LSD, underground e contracultura, começaram a antagonizar aos da Guerra do Vietnã, materialismo, consumismo, individualismo. Emergiam novos e urgentes referenciais. Os hippies eram basicamente contestadores, isso fruto de educação mais liberal, o que estimulava uma maior capacidade de expressão crítica, de se colocar diante de fatos como poluição atmosférica, questão ambiental, racismo, pobreza, o estilo dos pais, o consumismo exagerado. Contra o stablishment, os valores da classe média, armas nucleares (principalmente na Inglaterra), a Guerra do Vietnã (principalmente nos EUA), políticas ortodoxas, Nixon, ultra direita, doutrinação ideológica. A favor do paganismo, religiões e filosofias orientais, liberação sexual, LSD, expansão de consciência, vida em comunidades, paz, amor liberdade pessoal.

Essa era a cena hippie. Basicamente saíram do campo para a cidade e lá, pregavam o contato com a natureza e a volta para o campo, ao mundo caipira, que não gostavam dos hippies. Caipiras gostavam de música country, Willie Nelson (ótimo) ou até de Bob Dylan e Joan Baez. Nos anos 60 o folk foi eletrificado (Byrds, com influência Beatles e Dylan). A cultura hippie era mais comportamental que musical, mas influenciou caipiras, folks, beats, Beatles e outros na Inglaterra e Europa que influenciaram sua contrapartida norte-americana e na fusão de rock, folk, blues e rock psicodélico. Segue vídeo dos Dead, fazendo parte das experiências de Ken Casey com LSD.

Cabelos e barbas compridos, eram considerados ofensivos para quem não estava associado à contracultura. A língua oficial era o rock. E mesmo sendo o movimento caracterizado pela busca do prazer, não arregavam diante da opressão e das injustiças sociais. A “festa” começou com uma comunidade urbana que se chamava The Family Dog, que organizou o primeiro baile de rock na cidade, em 16 de outubro de 1965, no Longshoreman’s Hall, animados por 4 bandas locais. Depois disso, o point mais quente migrou de North Beach para a área em volta da esquina da Haight com Ashbury, um reduto negro que foi redecorado com cores psicodélicas, artigos orientais, muito incenso e obviamente, muito LSD.

Vida comunitária, amor livre, culto à natureza, religiões orientais, astrologia, tarô, canabis e LSD. Nascia o psicodelismo.  Abaixo, um dos embriões do nascimento do Rock Psicodélico, The 13th Floor Elevator, num experimento com LSD, em 1966.

The Family Dog acabou em 1966, e os bailes passaram a ser organizados por Bill Graham, dono do Filmore Auditorium, que viria a ser o templo do rock dos anos 60; e por Chet Helms, dono do salão Avalon, que mandou trazer do Texas uma velha amiga: Janis Joplin (foto abaixo), a futura musa dos hippies, que seria a cantora da banda da casa, o Big Brother & Holding Company.

Em janeiro de 1967, foi convocada uma “Reunião de Tribos” no Golden Gate Park, onde aconteceria o World’s First Human Be-In, que teve a presença de ceca de 20.000 jovens cantando, dançando, cobertos de flores, colares e pulseiras de contas. A partir daí, esperava-se a chegada de 100.000 hippies em junho de 1967, para o chamado Verão do Amor. Vieram 200.000 (foto maior, abaixo) como escrito mais acima. Eles foram chegando, a Comissão de Parques liberou áreas em torno de Haight-Ashbury para sacos de dormir (abaixo, uma imagem fashion no evento).

O Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band (Beatles, 1.06.67) contribuiu muito para o deslanchamento do Verão do Amor. Esse disco elevou o rock à categoria de arte. Melodias incandescentes, sons e texturas psicodélicas e justaposição de rock com barroco, faz com que irradie ondas de choque através da paisagem musical. Mas essas mudanças nos rumos da banda já haviam começado em 1965, com Rubber Soul, e Revolver, 1966. “Tomorrow Never Knows” (Revolver) é um exemplo claro disso. É interessante porque essa música é o ponto de encontro dos caminhos que cada um estava buscando. Paul estava voltado para a cultura clássica, George para a música indiana. E Lennon, voltou-se para o espaço interior, através do LSD (ele buscava livrar-se de seu ego). Foi aí que encontrou a compilação do budista “Livro Tibetano dos Mortos”, de Timothy Leary. O LSD era visto como um caminho de iluminação, e associado aos ensinamentos budistas, encontraria-se o despertar do campo ilusório da existência. Havia na época um paralelo entre LSD e o estado experimentado no satori zen budista. Lennon queria trazer 5000 monges do Tibete para conseguir o som como o do Dalai Lama e monges cantando no topo da montanha. Ele, o produtor George Martin e os técnicos de som, tiveram de inventar meios no limitado estúdio de Abbey Road, para conseguir os efeitos desejados (e diminuir os custos da produção) enviando e revolvendo várias vezes as fitas com vozes para  o gabinete Leslie e para o órgão Hammond, um processo extremamente cansativo. Acho que é por isso que o disco se chama Revolver, de tanto revolverem fitas, vozes, de ter que inventar um sistema : o ADT (automatic double-tracking). Lennon não ficou totalmente satisfeito, mas essa música e Revolver representa o início da segunda revolução no rock e no pop. Enquanto galvanizaram a concorrência e inspiraram muitas bandas novas, deixaram todos muito para trás.

David Soulsby, em seu livro “Somewhere In The Distance”, escreveu: (em tradução livre) “Se você estivesse procurando por uma apresentação eletrizante ao vivo em 1967, não tinha que buscar nada mais que The Who: era uma banda plena de ambição e atitude bombástica, teatralidade, e mais que isso, eram músicos excelentes para colocar isso em cena.” … “Tenho de confessar, com um certo embaraço, que Sgt Pepper’s foi o 1º álbum dos Beatles que tive. Claro, eu ouvia suas músicas desde o começo mas nunca havia comprado nada deles; suas músicas tocavam sem cessar nas rádios e nas TVs e eu estava muito ocupado com os Beach Boys, Rolling Stones, Searchers e Jefferson Airplane, para dar mais atenção aos Fab Four. Mas Sgt Pepper’s mudou tudo. Foi o vinil que tocou e tocou plenamente por todo o verão e além”. … “Porque Sgt Pepper’s é o maior álbum de todos os tempos ? Porque inauguraram uma nova era na manufatura de um álbum/disco: a partir dele agora são conceituais, com idéias e temas que não eram considerados. Capas com design, com arte encapsuladas de forma e caminhos dinâmicos e experimentais. E músicos podem ir em qualquer direção que quiserem, livres para misturar todas as formas de música em ricas palhetas em infinitas variedades. Não é a primeira vez que eles se colocaram para fazer essas coisas, mas a porta é agora bem aberta e verdadeira.”

A exploração turística foi tão grande que, a partir desse evento, os hippies deixaram Haight-Ashbury, e foram viver em comunidades rurais. Sociedade alternativa. Nasceram muitas comunidades. Passaram a criar e elaborar produtos limpos, naturalistas e feitos artesanalmente, que logo foi engolido pelo sistema, que percebeu o potencial comercial desses produtos de consumo com grande apelo conceitual, natural. O que aconteceu em S. Francisco em 1967, refletiu o que estava acontecendo ou iria acontecer em quase todas as cidades do mundo industrializado.

É fato que o espírito criativo e positivo iniciado em 1961 começou a desaparecer com a visão horrorosa da Guerra do Vietnã, os assassinatos de John e Robert Kennedy e de Martin Luther King.

O Movimento Hippie é identificado com a “We decade”, conforme colocou Tom Wolf, em contraposição a “Me decade” simbolizado pelos anos 70. Colaborou com aspectos inovadores, criativos e humanizadores. O espírito de “conheça-se e expresse-se” do começo e do meio dos anos 60, combinava idealmente com sensibilidade comunitária e identificação grupal. Começou nos EUA nos 60, foi para outros países e teve seu declínio nos anos 70.  Mas deixou marcas, rompeu barreiras para as gerações seguintes:

Amor Livre; Vida em comunidade; Negação de todas as regras do capitalismo; Decisões tomadas em conjunto; Agricultura de subsistência; Troca solidária como moeda; Moda: Roupas brilhantes de inspiração indiana, estampas inspiradas em motivos psicodélicos; Valores religiosos com influência oriental; Liberação Sexual – a invenção da pílula anticoncepcional nos anos 60, colocou as mulheres em um patamar de liberdade, através da possibilidade de escolha, e libertando-a da gravidez indesejada, que sempre foi vista como uma vergonha e coisas piores através dos séculos. E puderam organizar melhor suas vidas, abrindo espaço para igualdade de sexo.

A década de 60 viveu uma revolução, sem dúvida:

Auto-afirmação de movimentos das minorias, como Feminismo, Movimento Gay; Luta pelos Direitos Civis; Pacifismo e contra as guerras; Bases do Movimento Ambientalista. Influências na cultura como: Contra-Cultura; HQ; Poesia Concreta; Cultura de Massa; Artes Plásticas: artistas inspiram-se em conceitos hippies para criar suas obras.

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Acima, o Mini S (lançado em 22 a 24 de maio de 2009 em Londres)inspirado no Mini 1966 de George Harrison (morto em 2001) com ilustrações de origem indiana e grafismos psicodélicos, presente de Brian Epstein, empresário da banda, a cada um dos Beatles. Ao fundo o Mini de George.

A pintura que ilustra a capa do livro acima, é de Isaac Abrams, “All Things Are One Thing” (Todas as coisas são uma coisa só), óleo sobre tela, 1967. Foto de Alan Meyerowitz, para a exposição “Summer of Love”, Arte da Era Psicodélica – 27/5 – 25/9, 2005 – Tate Liverpool, UK www.tate.org.uk/liverpool

Leia também os posts:Verão do Amor – Monterey Pop” e “Woodstock”

O Rolls Royce acima pertenceu a John Lennon e o Porsche era de Janis Joplin

* Nature Boy ( Música e Letra de Eden Ahbez)

There was a boy / A very strange and enchanted boy / They say he wandered very far, very far / Over land and sea / A little shy / And sad of eye / But very wise / Was he. / And then one day / A magic day he passed my way / And while we spoke of many things, fools and kings / This he said to me /  “The greatest thing / You never learn / Is just love and be loved in return”.

Hit Parade Parisiense em Maio 1968

Posted in Década de 60 on 05/08/2008 by edi cavalcante

Françoise Hardy


Tive curiosidade de saber o que estava rolando nas paradas parisienses em maio de 68. Depois de muita procura, encontrei um blog muito interessante com notícias diárias de Paris em 1968. Até preço de alimentos, como baguete, por exemplo. Em 31 de maio noticiaram que “a Sorbonne teve 5 focos de incêndio, o que exclui a hipótese de acidente. O ‘comitê de ocupação’ denunciou prontamente esse incidente”. A lista que encontrei vai de 15 de maio a 15 de junho de 1968. É uma lista longa, mas me satisfiz em anotar as 10 +.

1. “Entre mes mains” – Johnny Halliday

2. “Quand une fille aime un garçon” – Sheila

3. “Jacques a dit” – Claude François

4. “Je n’aime que toi” – Eddy Mitchell – Não encontrei a versão de Eddy Mitchell

5. “Quelque chose en moi tient mon coeur” – Herbert Leonard

6. “Attends-moi” – Monty

7. “Baby Capone” – Sylvie Vartan

8. “Le ruisseau de mon enfance” – Adamo, versão apresentada no Olympia, em 1969

9. “Bonjour Salut” – Antoine

10. Je ne ce pas que je veux – Françoise Hardy

Sobre Françoise Hardy, não deixe de ver no blog Tongue in Chic, de Kuala Kumpur, que a posteriori, em 29.4.09, publicou a coluna “Icon of the Week : Françoise Hardy”: http://www.tonguechic.com/articles/1353-Icon-of-the-Week-Françoise-Hardy

Achei incrível não haver nada, nada, do que rolava de mais instigante musicalmente no mundo.

Para quem quiser se aprofundar mais : http://tempsreel.nouvelobs.com  Procure a página “Le Quotidien de 1968″.

Trilha Sonora de 1968

Posted in Década de 60 on 19/06/2008 by edi cavalcante

por edi cavalcante

1968 é considerado o ano mais importante do Século XX, o olho do furacão nos criativos e conturbados anos da década de 60, pródigos nas mudanças dos costumes, nas artes e na luta pelos direitos civis. Claro, a música tem uma posição central. Essa música era o Rock, e suas várias faces com possibilidades jamais imaginadas. Seguem as principais canções. Muitas das canções mais ouvidas são apenas comerciais, na esteira daquelas que interessam, e serão ignoradas.  Os números entre parênteses representam a colocação no Top 100 mundial de 1968.

Hey Jude – The Beatles (1ª) ; People Got To Be Free – The Rascals (3ª) ; Mrs. Robinson – Simon and Garfunkle (4ª), esta canção foi trilha sonora do longa The Graduate-A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols ; Born to Be Wild – Steppenwolf (13ª), trilha sonora de Easy Rider-Sem Destino, de 1969 ; Hello I Love You – The Doors (22ª) ; Jumpin’ Jack Flash – The Rolling Stones (27ª) ; The Dock of the Bay – Otis Redding, morto em acidente aéreo logo após alcançar pela 1ª vez o Top 1 ; Sunshine of Your Love – Cream (36ª) ; Chain of Fools – Aretha Franklin (51ª) ; I Heard it Through the Grapevine - Marvin Gaye (53ª); Love Child – Diana Ross/Supremes ; (Todas essas canções alcançaram o Top 1 em 1968).

Ainda : Revolution ( do Álbum Branco) – The Beatles ; Street Fighting Man (considerada a música mais política dos Rolling Stones, do Beggar’s Banquet) – The Rolling Stones ; Dance to the Music -Sly & The Family Stone ; Je t’aime mois non plus – Serge Gainsbourg & Jane Birkin ; É Proibido Proibir - Caetano Veloso,  que recebe vaias furiosas do público no 3º FIC (Festival Internacional da Canção, da Globo), no Tuca. Caetano não se intimida e faz um discurso inflamado e histórico ; Sabiá - Chico Buarque, canção em parceria com Tom Jobim, que vence no mesmo evento, mas é recusada pelo público, que prefere “Para Não Dizer que Não Falei de Flores”, de Geraldo Vandré, 2º colocado ; Tropicália – Caetano Veloso, canção-manifesto do movimento Tropicália ; Divino Maravilhoso (Caetano e Gil) – Gal Costa, que também lançou “Baby”, canção de Caetano Veloso, e participou do Festival da Record ; São Paulo Meu Amor – Tom Zé, 1ª colocada no mesmo festival. Isso tudo um mês antes do famigerado Ato Institucional nº 5 – AI-5 ; Carolina – Chico Buarque ; Roda Viva – Chico Buarque ; Eu Te Amo, Eu Te Amo, Eu Te Amo e Se Você Pensa – Roberto Carlos ;

Principais LPs

Lançado em 22.11.68, esse álbum duplo com capa de Richard Hamilton, um dos mais importantes artistas ingleses da Pop Art, e segundo ele, a marca forte da banda tornavam desnecessárias qualquer artifício publicitário. Esse álbum contém a maior parte das músicas compostas na India. Como Sgt. Pepper’s, é um disco gerado na direção oposta do mercado, panorâmico, inventivo, com um olhar “fish-eye”, crítico e belo. Significa que paralelamente ao mercado, havia um mercado rebelde, cuja embalagem continha o rótulo da rebeldia, do underground, da contracultura, que fazia parte dos ideais dos jovens que queriam tomar o poder, que queriam transformar os valores do establishment, que culminou com as barricadas de Paris, em maio de 68, 11 meses depois do lançamento do Sgt. Pepper’s. O nome da banda e o nº de série eram a princípio em relevo. Em apenas 1 semana vendeu 2.000.000 de cópias, apenas nos EUA. No Top 500 Melhores Albuns de todos os tempos da revista Rolling Stone, figura na 10ª posição. Mas é nº 1 em outras listas (v. BestEverAlbuns.com). É um álbum duplo com 30 músicas e cada uma bem diferente da outra. Fodástico. Como curiosidade, seriam lançados 2 “Black Album”, um do Prince (1988), que mostrou que ainda era possível fazer algo criativo 20 anos depois, e o outro é do Jay-Z, rapper norte-americano (2003). Aí aparece um cara novaiorquino, Brian Burton, conhecido como Danger Mouse. Ele se tranca num estúdio para produzir o que seria a união do instrumental do Álbum Branco (acima), com os vocais do “The Black Album” do Jay-Z, resultando no “The Grey Album” (2003), uma subversão da estética clássica desses 2 discos. Apesar do produtor ter acolhido o pedido da EMI, então proprietária dos direitos musicais dos Beatles, em recolher as cópias do álbum em circulação, não coseguiu evitar que chegasse à internet.

Esse disco representa o início da ‘fase de ouro’ dos Rolling Stones, também criado no conceito de oposição ao mercado, criativo e instigante ( depois viriam, Let it Bleed, 1969; Sticky Fingers, 1971; e Exile on Main Street, de 1972 ) e é também a última participação de Brian Jones, o fundador da banda, em um disco do grupo. Foi lançado em 6.12.68. Algumas curiosidades: consta que em 11.06.68, durante a gravação de “Sympathy for the Devil” no Olympic Studios, o telhado pega fogo. (Em 1969, no Festival de Altamont, CAL., o assassinato do jovem negro pelos Hell’s Angels, que faziam a segurança do evento, se deu enquanto tocavam essa música). Não pegou bem fazerem a capa similar ao LP dos Beatles. Nas 500 Mais da Rolling Stone figura em 57º lugar.

Dizem que as “assinaturas” rítmicas tocadas por Jimi Hendrix eram muito próximas dos rítmos tocados por seu pai nas cerimônias Vodu, que assistia quando era criança. Porém, é certo que a partir do encontro com o baterista Kwasi Dzidzornu, o Rocki, ficou claro seu interesse por cultos africanos, da etnia Yorubá. Ao ser perguntado sobre se havia “feito um pacto com o diabo”, respondeu, “pergunte à minha guitarra”. Esse é o último disco da Jimi Hendrix Experience, que daria lugar ao Band of Gypsys.

Primeiro LP individual de Caetano Veloso, início de um grande percurso, lançado em janeiro de 1968. Caetano já havia mostrado a que veio com “Alegria, Alegria”, uma lufada de ar fresco na MPB, quando se apresentou acompanhado da banda argentina The Beat Boys, no 3º Festival de Música Popular Brasileira (TV Record, out 1967). Estava em perfeita sintonia com o que estava rolando no mundo, partindo da sonoridade da Bossa Nova, para a ousadia do experimentalismo e consequentemente anti-comercial.

De 11 grandes álbuns da música brasileira, esse é considerado o nº 1, segundo a crítica especializada (v. Ilustrada, FSP, 13.01.05)*. É uma ruptura cultural, política e estética na MPB. “Engole” desde a Antropofagia do “Pau Brasil” de Oswalde de Andrade nos anos 20, a Poesia Concreta dos anos 50, a Bossa Nova, Vicente Celestino, a Banda de Pífano de Caruaru, a experimentação dos Beatles, leia-se Sgt. Pepper’s. Ou seja, uma identificação com o Modernismo brasileiro, busca de identidade nacional ao mesmo tempo que ligado nas vanguardas que sopravam da Inglaterra e EUA. ( Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinan, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão e arranjos de Rogério Duprat)

Janis Joplin e seu 1º disco e o melhor na minha opinião, ainda com Big Brother Holding Company e capa do Robert Crumb, mais underground, impossível.

 

Banda formada em 1966 com os irmãos Arnaldo e Sérgio Batista e Rita Lee. Sempre irreverentes, abertos para experimentações e muito criativos, Os Mutantes foram sem dúvida, a banda mais interessante surgida no Brasil. Beatles foram sua maior influência.

The Zombies, banda formada em St. Albans, Inglaterra, em 1961, tinha uma sonoridade complexa e bem jazística, como p.e. a linda “She’s Not There”. Esse disco é influenciado diretamente a partir de uma tendência que se originou na música “Yesterday” dos Beatles (1965), que deu início formal ao pop barroco.  A partir daí, o uso de orquestrações, instrumentos estranhos ao rock, viriam a ser largamente utilizados. Algumas músicas do disco, como Care of Cell 44, This Will be Our Year e Time of the Season, foram trilha sonora para “Tempo de Despertar” e “Montado na Bala”, 1990 e 2004, respectivamente. Na lista das 500 Mais da Rolling Stone figura em 80º lugar.

A banda que acompanhou Bob Dylan gravou esse grande disco que tem esse nome porque alguns integrantes moravam numa casa pintada de rosa (abaixo), onde tinham um estúdio e gravaram as canções.  Na lista da Rolling Stone figuram no 34º posto.

 

ISB – The Incredible String Band - Essa banda acústica escocesa formada em 1965 tem seu embrião na cena folk de Edinburgh (Edinburgh Folk Festival), capital da Escócia, por volta de 1962. São considerados pioneiros no estilo psych folk ( mistura de música folclórica dos anos 60 com músicas das bandas psicodélicas dos anos 60) e suas canções remetiam ao amor pela natureza e pelos pequenos animais. “The Hangman’s Beautiful Daugther” é considerado por muitos como seu melhor álbum. Ainda estão ativos.

 
* A lista completa : Além de Tropicália ou Panis et Circences de 1968 com 8 votos, vem, Acabou Chorare (1972), Novos Baianos, 5 votos ; Da Lama ao Caos (1994), Chico Science e Nação Zumbi – 4 votos ; Samba Esquema Novo (1963), Jorge Ben – 4 votos ; Elis & Tom (1974), Elis Regina e Tom Jobim – 4 votos ; Canção do Amor Demais (1958), Elizete Cardoso e João Gilberto – 4 votos ; Construção (1971), Chico Buarque – 3 votos ; Clube da Esquina (1972), Miltom Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes – 3 votos ; Secos & Molhados (1973), Secos & Molhados – 3 votos ; Cartola (1976), Cartola – 3 votos ; Amoroso (1977), João Gilberto – 3 votos.
 
Participaram da votação os críticos musicais Carlos Calado, Fernando Faro, Israel do Vale, João Máximo, Jotabê Medeiros, Lauro Lisboa Garcia, Marco Frenette, Mauro Dias, Pedro Alexandre Sanches, Sérgio Martins, Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello; Cada jurado indicou o nome de 10 álbuns.
 
 
 
 
 
 
 
                 

Farewell, Bo Diddley (28.12.1928 – 2.6.2008)

Posted in Década de 60 on 04/06/2008 by edi cavalcante

por edi cavalcante

Seu nome de nascimento era Otha Ellas Bates, mas preferiu o nome de sua mãe adotiva, McDaniel. Nasceu em McComb, Mississipi, EUA. Em maio de 2007, durante um show em Iowa, sofreu um acidente vascular cerebral e em agosto do mesmo ano, na Flórida, para piorar, teve um ataque cardíaco. Seu primeiro instrumento foi um violino e tocou trombone no coral da igreja. Depois foi boxeador, quando passou a ser chamado por uma espécie de apelido, “Bo Diddley”, em Chicago. Diz a lenda que esse nome vem de um guitarrista africano. Vindo do Mississipi, é natural que sua música seja o R&B e suas principais influências foram Louis Jordan, John Lee Hooker e Muddy Waters. No final de 1954, nos Studios Checker & Chess, gravadora em que permaneceu por 21 anos, gravou o demo “I’m A Man” e “Bo Diddley”, com Otis Span (piano), Lester Davenport (harmônica), Frank Kirkland (bateria) e Jerome Green (maracas). Em 1955, “Bo Diddley”, tornou-se um hit R&B top 20. Com sua guitarra-caixa elétrica em forma de retângulo, Bo Diddley considera-se o primeiro, o pioneiro do Rock’n’Roll, já que veio antes de Little Richards, Chuck Berry e Elvis Presley. Lenda viva do rock, teve desde 1963, com a nova onda de bandas inglesas, seu merecido tributo, com bandas – como The Rolling Stones, The Animals, The Kinks, Manfred Mann, The Yardbirds – que faziam covers de sua música, e ainda, The Pretty Things, banda cujo nome é tirado de uma música sua, “Pretty Thing”, louvável reconhecimento.

fonte : http://www.bo-diddley.com

 

Maio de 68 – 40 anos

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por edi cavalcante

“É Proibido Proibir”, “A Imaginação no Poder”, “Tomo meus desejos por realidade, pois acredito na realidade de meus desejos”, “Quando penso em revolução quero fazer amor”, “Somos realistas: queiramos o impossível”, “As ruas são do Povo”, “Não pedimos nada. Não exigimos nada. Nós tomaremos. Ocuparemos”. São slogans que remetem a maio de 1968. Mas 1968 foi o ano em que tudo aconteceu, que emergiu uma realidade que que gerou uma politização automática, foi o paroxismo dos confrontos entre o sentimento libertário e autoritarismo. E contra a liberdade de expressão, a repressão. Durante todo o ano muitos eventos ocorreram em sincronismo por todo o mundo. As manifestações por mudanças nas estruturas era fundamental. Crítica radical do cotidiano, do consumo, do automóvel, da intoxicação pela mídia. Os Provos (em 1965) já haviam se manifestado e redigido um manifesto sobre esses assuntos. As manifestações estudantis em Paris (acima, as barricadas) tiveram início com a rebelião dos alunos de Nanterre (março), por não serem atendidos na permissão para que as meninas e os meninos pudessem circular livremente pelos dormitórios uns dos outros. Em 21 de março acontece a tomada do campus de Nanterre. No Rio, em 28, ainda em março, um estudante secundarista, o Edson Luís, é morto de forma estúpida, porque não fazia nada que pudesse ser considerado subversivo quando a PM invadiu o restaurante estudantil Calabouço, onde ele estava, gerando um confronto entre estudantes e policiais. A liderança da UNE, clandestina nesse período, reage com a convocação de greve nacional dos estudantes. Os confrontos continuaram em 29, e, à noite, após o enterro, os manifestantes queimaram a bandeira dos EUA, visando atingir o governo brasileiro.

1968 trouxe uma forte densidade política contra o regime militar. Mas o ano prometia, porque já em janeiro, em 31, acontece a Ofensiva Tet, lançada pelos Vietcongs. Foi o começo do fim para os americanos, que viram cada vila, cada lugarejo, ser tomada pelos guerrilheiros, sitiando-os  e diminuindo seu espaço. A guerra começa a ser perdida pelos EUA. Em fevereiro a ofensiva prossegue e as TVs documentam tudo, levando aos lares americanos cenas brutais de violência. E em 16 de março acontece o Massacre de My Lai, e a opinião pública não suporta a visão das atrocidades cometidas. Em 4 de abril Martim Luther King é assassinado em Memphis. Por todo os EUA, as comunidades negras protestam após o enterro de Martim Luther. Em maio, Daniel Cohn-Bendit “Dany, Le Rouge”, estudante de sociologia em Nanterre, onde teve origem a revolta contra o sistema educacional na França, propõe a ocupação da Sorbonne.

Entre os dias 5 e 7, o Quartier Latin vira um campo de batalha. Em 9 de maio o exército soviético chega à fronteira da Tchecoslováquia. Em 11, Georges Pompidou anuncia a reabertura da Sorbonne e anistia aos estudantes. Mas não adiantou. Mais de 10.000 trabalhadores franceses iniciam greve geral no dia 21, em apoio aos estudantes. A França pára. Ruas incendiadas, carros virados. No Rio, na Candelária, passeata dos 100.000, com participação de artistas e intelectuais.

Protestos na Alemanha, Japão e Inglaterra. Nos EUA, os confrontos tornam-se mais violentos. Na França, De Gaulle dissolve a Assembléia Nacional e propõe novas eleições. Em 30 de maio, a classe média francesa atendeu ao apelo de De Gaulle em passeata de apoio ao governo. Em junho, o Quartier Latin continua queimando. Em Nova York, o artista plástico Andy Warhol é baleado por uma mulher, Valerie Solanas. No dia 5, Bob Kennedy (Robert Fitzgerald Kennedy), irmão do ex-presidente John Kennedy, em campanha presidencial, é assassinado em Los Angeles.

By Antony Bridle

Com as eleições, a França volta à ordem. Os comunistas são derrotados.

O acordo sindical não animou os estudantes, e acusam a CGT, central dos trabalhadores, de impedirem a revolução.

Em São Paulo, acontece a batalha campal na rua Maria Antônia, entre alunos da Filosofia, Ciências e Letras, contra alunos da Faculdade de Direito do MacKenzie, mas na verdade, o pessoal do CCC, Comando de Caça aos Comunistas, que, presume-se, provocaram o conflito, ao jogarem um ovo sobre os alunos da USP. O mesmo CCC que em 17 de julho, invade o teatro onde era levado a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, e espanca os atores.

O exército do Pacto de Varsóvia (URSS, Polônia, Alemanha Oriental, Hungria, Bulgária), liderado pela União Soviética, sob Leonid Breznev, invade a Tchecoslováquia em 21 de agosto e impõe um retorno ao totalitarismo.

Foi uma operação estilo blitzkrieg, com aviões fazendo vôos rasantes já na madrugada do dia 21 e uma rápida ocupação com os blindados nos pontos estratégicos de Praga, passando por cima de quem quer que estivesse à frente, inclusive um jovem que tropeçou diante de um tanque e foi esmagado pelas esteiras. Repressão volta com tudo na Tchecoslováquia.

Essa invasão desmontou o que ficou conhecido como a Primavera de Praga, uma experiência iniciada 8 meses antes, “socialismo com face humana”. Isso aconteceu porque Alexander Dubcek, um torneiro mecânico eleito Secretário Geral do Partido Comunista Tcheco, em janeiro de 1968, iniciou um processo de democratização no país – sindicatos independentes, abolição da censura, livre competição entre as empresas estatais – com forte adesão dos jovens e estudantes e de parte da população, e que já tinha provocado uma reação soviética posicionando os tanques na fronteira alguns meses atrás – o que significava ir contra a política do Kremlin.

Esse evento põe fim ao sonho de a Tchecoslováquia se ver livre do peso da Cortina de Ferro, como era chamada a fronteira que abrangia os países do Pacto de Varsóvia.

Em 12 de outubro, em Ibiúna, interior paulista, a PM invade o 30° Congresso da UNE e todos são presos.

No México, em simples manifestação pacífica, 500 são mortos. Estava claro que em todo mundo, que a geração que detinha o poder no pós-guerra tinha valores enraizados, cristalizados, com dificuldade de aceitar o novo que impunha e confrontava tudo que já não fazia sentido. A juventude por sua vez jamais viveu tamanha utopia com palavras de ordem e ações de enfrentamento em sintonia com a força criativa transformadora. E em 13 de dezembro de 1968, o presidente da República, general Arthur da Costa e Silva, decretou o AI-5, Ato Institucional nº 5, fechando o Congresso e concentrando todo o poder na figura do presidente, o que significava a perda dos direitos constitucionais do cidadão, e o recrudescimento da violência e da repressão, da censura, perseguições, cassação em massa e prisão de políticos e também de qualquer um que não se alinhasse a esse ‘estado de coisas’. E ainda ia piorar, os anos de chumbo batem à porta. Caetano Veloso e Gilberto Gil são presos.

Com isso, os artistas tiveram de encontrar formas de expressar idéias. Se antes do AI-5, as iniciativas dos artistas levavam a passeatas e manifestações, depois, a força da repressão foi muito maior e com consequências muito mais fragmentárias do que se poderia supor. Essa penúria durou longos 11 anos. Abaixo, faixa em passeata com a alusão à canção de Chico Buarque.

E apesar de toda a revolução de costumes, na cultura, de valores, apesar de tudo isso, chama a atenção a matéria “A Irrelevância de 1968″ (e os livros “Never Had It So Good” e “White Heat”), de Dominic Sandbrook, em 5.05.08, publicada na UOL Mídia Global, em que diz que “para as pessoas que tiveram uma vida boa nos 50 e 60, nos EUA, p.e., votaram maciçamente (os jovens incluídos) em Nixon, e a guerra do Vietnã durou mais 7 anos, e só acabou com a vitória do Vietnã”. Essa grande maioria silenciosa, medíocre, “foi quem conduziu a história nos anos que se seguiram e se mantiveram conservadores em suas atitudes políticas e culturais”. E na Inglaterra, a desvalorização da libra esterlina, enfraquecia o governo trabalhista de Harold Wilson, os salários estagnaram-se e as greves paralisavam o país. No mundo todo, o final dos 60 (e no Brasil por volta de 1974) já havia mostrado que a irreverência, as ações vanguardistas, a significação da obra de arte, os hippies, beatniks, freaks, tinham chegado ao ponto de diluição, tudo absorvido pela classe média. Saturação. Como disse Otília Beatriz Fiori Arantes (“Depois das Vanguardas”, Arte em Revista nº 7, Ceac, 1973), “tentar escandalizar quando nada mais escandaliza é arrombar uma porta aberta”. Também é interessante citar Jean Claude Milner, autor de ensaios implacáveis (v. “O Sábio Judeu”, edit. Grasset, 2006), que no pós-68 pertencia à Esquerda Proletária (GP, sigla em francês), principal organização maoísta na época. Atualmente, no Instituto de Estudos Levinessianos, – criado em 2000 ao redor de seu amigo Benny Lévy, antigo chefe da GP - em palestra para examinar o “encontro” entre Maio 68 e o esquerdismo francês, coloca que Maio de 68 tem de ser visto como questão do presente. Uma questão do AGORA, referindo-se à época. Ele diz, “Maio de 68 não é para os outros, para mais tarde. É para nós, aqui e agora” (v. cesarkiraly.wordpress.com). A corrente vigente nos EUA acadêmicos de hoje é que os 60 não deixaram legado. Talvez venha daí a frase que diz que “a década de 60 é a década da esperança perdida”. Mas, na minha opinião, o fato de que a Guerra do Vietnã não tenha acabado ainda nos 60, p.e., não significa que as manifestações pela paz, inspirados pelo “Flower Power”, que perdeu o sentido de existir – e os confrontos diretos com a polícia ou que o Cassius Clay (depois Mohammed Ali), tenha se recusado a servir no Vietnã – não tenham influenciado mentes e corações de todo o mundo, e que isso não tenha causado uma pressão interna cada vez maior dentro dos EUA, mesmo com a força do sistema corporativo canibalizar e reverter tudo em números (financeiros, a seu favor); ou que a música de Dylan e Beatles, os festivais, não tenha influenciado toda uma sequência de transformações culturais; ou que artistas como Hélio Oiticica, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto e o Tropicalismo (mesmo durando pouco) não tenha sido um divisor de águas na cultura brasileira. E ainda, as conquistas dos direitos civis nos EUA, Martim Luther King, Malcom X, o fim do apartheid, o direito do negro de votar; o Feminismo, a emancipação da mulher; o Orgulho Gay, o Ambientalismo, que tiveram campo para se expor, lutar, se afirmar e expandir.

A seguir, filmes realizados por volta de 1968, do Cinema Novo e Cinema Marginal na “MOSTRA MEMÓRIA E CENSURA NO CINEMA BRASILEIRO”. 10 A 26 DE JUNHO DE 2008 – 19 HORAS - CINECLUBE PÓLIS – R. Araújo 124, Centro – Entrada Grátis – depois dos filmes debates

Fome de amor – Nelson Pereira dos Santos – 1968; Bandido da Luz Vermelha – Rogério Sganzerla – 1968; Navalha na Carne – Braz Chediak – 1969; Lance Maior – Sílvio Back – 1968; Brasil Ano 2000 – Walter Lima Jr. – 1968.

Minha Bibliografia

Posted in Década de 60 on 21/05/2008 by edi cavalcante

60, minha bibliografia, arte de Joe MckendryIlustração de Joe Mckendry

1. Matteo Guarnacia – “Provos, Amsterdã e o Nascimento da Contracultura”, Edit. Conrad, Col. Baderna   2. Carlota Cafiero – Introdução para o livro “Provos,…”, Matteo Guarnacia, Edit. Conrad, Col. Baderna   3. Cláudio Willer – “Os Beats Abominaram a Década de 50″, Ilustrada, FSP, 3.4.84  4. Mário César Carvalho – “Do Marketing da Rebeldia ao Mal Estar do Mercado”, Ilustrada, FSP, 22.3.84  5. Flávia Marreiro, Raul Juste Lores – “Fotos Mostram Agonia de Che Guevara”, FSP, 28.4.06   6. Paulo Henrique Brito – “Arte de Hoje Espelha Presente com Indiferença“, Ilustrada, FSP, 17.10.93   7. Violão & Guitarra, Especial nº 7 – Edit. Imprima Comunicação e Editoração Ltda.  8. Paulo Cavalcanti – “A Conquista do Oeste”, História do Rock – Vol. 2, 1964-1971, Bizz, Edit. Abril  9. Ana Maria Bahiana – “O Trovador Elétrico“, idem   10. Fernando Rosa – “Concertos para a Juventude”, idem  11. Ricardo Alexandre – “O Inferno é Fogo”, idem  12. Alexandre Matias – “A Vida é Cheia de Som e Fúria”, idem  13. Pedro Alexandre Sanches – “Isto é Arte ?”, idem  14. Ricardo Schott - “Tempo de Despertar”, idem  15. Rubens Leme da Fonseca, Rogério Ortega – “Monterey,’Pai’ dos Festivais, faz 30 Anos”, Ilustrada, FSP, 16.6.97   16. Eric Hobsbawn – “Era dos Extremos, o Breve Século XX, 1914-1991″, 1995, Companhia das Letras  17. Christopher Andersen – “Mick Jagger, Biografia Não Autorizada”, Edit. Habra   18. Eduardo Bueno – “Brasil: Uma História, a incrível saga de um país”, 2003, Edit. Ática  19. Rock ! Coleção 100 Respostas nº 4, Super Interessante, Edit. Abril   20. José Augusto Lemos – “Rock’n’Roll”, 2003, Edit. Abril   21. André Barcinsky – “1, 2, 3, 4 !”, Especial para Super Interessante, Edit. Abril   22. Gabrielle Roth – “Maps to Ecstasy: Teachings of an Urban Shaman“, 1989, Nataraj Publishing, Novato, CA, USA   23. Aventuras na História nº 35, julho 06, Edit. Abril  24. Ian MacDonald – “Revolution in the Head, The Beatles Records and The Sixties”, 1994, Fourth State, London   25. Ana Clara Costa, editora – Revista Paradoxo, 4.10.04   26. Cláudio Júlio Tognolli – “Leary, o Surfista do Caos”, gardenal.org   27. Peter Burke – “Memórias em Confronto”, Ilustrada, FSP, 17.9.06   28. Dias, Genebaldo F. – “Educação Ambiental, princípios e Práticas”, Edit. Gaia, SP, 1992  29. The Official Web Site of Malcolm   30. Marcelo Rezende – “Tropicália, o Movimento que não Terminou”, Bravo nº 120, agosto 07   31. Mikail Gilmore – “Verão do Amor“, “Aconteceu em 1967″, Rolling Stone nº 12, setembro 2007   32. Robert Greenfield – “O Rei do LSD”, idem   33. Mikail Gilmore – “Fabricando Sgt. Pepper’s”, idem   34. Paulo Cavalcanti – “Brasil 1967″, “Terra em Transição”, idem   35. Robert Santilli – Bob Dylan Scrap Book, 2005, Grey Water Park Productions   36. Bob Spitz - “The Beatles, A Biografia”, 2007, Larousse    37.  Santuza Cambraia Naves  - “Da Bossa Nova à Tropicália” , 2001, 2ª edição, Jorge Zahar Editora, Col. Descobrindo o Brasil   38. Keith Richards - “Life”, 2010, Globo   39. Eric Hobsbawm - “Tempos Interessantes – Uma vida no século XX”, 2002, Companhia das Letras   40. Nara Leão site oficial   41. Myra Friedman – Enterrada Viva – A Biografia de Janis Joplin”, 1974, Editora Civilização Brasileira   42. Luiz Carlos Lucena - “Rock – A Música da Revolução”, 2005, Selecta Editora   43. Helena Jobim – “Antonio Carlos Jobim, Um Homem Iluminado”, 1996, Editora Nova Fronteira   Ricardo Alexandre - “Nem Vem que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal”, 2009, Editora Globo   44. Nelson Motta – “Noites Tropicais – Solos, improvisos e memórias musicais”, 2000, Editora Objetiva

O Experimento Newport

Posted in Década de 60 on 07/05/2008 by edi cavalcante

por edi cavalcante

Foi assim que ficou conhecido o Festival Folk de Newport, costa leste dos EUA, em 25 de julho de 1965. Foi justamente lá, no mais tradicional dos eventos folk, que Dylan (foto acima) se apresentou com guitarras elétricas, e provocou uma violenta reação. Newport não esperava que seu queridinho abandonasse suas raízes. Foi um caos. Imagine um público de pessoas que acreditavam que sua música tradicional era a única que se mantinha pura e fiel às suas raízes, e ainda por cima, para qualquer lado que virassem o ‘dial’ de seus rádios só encontravam Beatles, outros grupos inglêses de rock e R&B. No sábado, 24, Dylan tocou “All I Really Want To Do” e “Mr. Tambourine Man” ( do LP “Bringing It All Back Home”, março de 1965, meio acústico, meio elétrico ). Ele queria cantar “Like a Rolling Stone”, e para isso, foram recrutados 3 membros da Paul Butterfield Band: Mike Bloonfield-guitarrista; Sam Lay-baterista; Jerome Arnold-baixista. A banda foi completada com o pianista Barry Golberg, que Dylan encontrou numa festa em Newport, mais Al Kooper no órgão. Depois passaram a noite numa mansão da cidade, ensaiando até o amanhecer, e mantiveram o plano secreto até a hora de subir no palco. Em 25, domingo, Dylan começou “Maggie’s Farm”, e o público veio abaixo com vaias enfurecidas. Quando começaram a tocar “Like a Rolling Stone”, gritos ensurdecedores e pedidos “Toquem música folk! Isto é um Festival Folk!”, tornou impossível a continuação do show. Nessa hora Dylan retirou-se com a banda, mas o ‘mestre de cerimônias’ Peter Yarrow e a cantora folk Joan Baez conseguiram que voltasse ao palco, sozinho, com uma guitarra acústica jogada em suas mãos. O público pedia “Mr. Tambourine Man” e Dylan disse: “OK, eu tocarei esta para vocês.” E foi aplaudido. Em seguida tocou “It’s All Over Now, Baby Blue”, como um adeus a Newport (até 2002) e ao público de folks puristas. Para eles, foi como o ato de jogar uma bomba em algo sagrado. Talvez tenha sido, mas a luz que se fez iluminou os horizontes da música norte americana de forma irreversível. A partir daí a música folk teve suas fronteiras alargadas. Foi o fim do revival folk. E foi determinante para toda a música popular. Tudo se tornava possível na música popular. Depois, em agosto de 65, em Forest Hills, Dylan juntou-se à banda canadense The Hawks, e cantou “Like a Rolling Stone” para um público que ainda o vaiava. Depois disso, The Hawks muda o nome para The Band e passa a acompanhá-lo em tempo integral. Nesse rastro seguiram-se bandas como The Lovin’ Spoonfull; Buffalo Springfield; Crosby, Still, Nash & Young (que se juntou depois ao grupo); Flying Burrito Brothers; Dillard & Clark. Mais para frente surgiram The Eagles, Tom Petty, REM, Jay Hawks, Big Star, Gin Blossoms, Travis, Dream Syndicate, Shins e Beachwood Sparks.* Tudo isso nasceu das duas sementes que se misturaram naquele encontro no final do verão de 1964 em Nova York.

A lindíssima Joan Baez, musa folk

* v. Ana Maria Bahiana, “O Trovador Elétrico”, A História do Rock, Vol. 2 , Bizz.

Fusão : Frutos e Sementes

Posted in Década de 60 on 06/05/2008 by edi cavalcante

por edi cavalcante

O encontro entre Dylan e Beatles em 28 de agosto de 1964, repercutiu imediatamente em suas obras.  Em apenas 3 anos a partir daquela data, foram lançados 3 álbuns de Dylan e 4 dos Beatles. Foram os discos que mudaram a história. Dylan lançou : Bringing It All Back Home, 1965; Highway 61 Revisited, 1965 (4ª posição – anotando posição apenas das que estão no top 10  do ranking dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos. Rolling Stone, março 2006); Blonde on Blonde, 1966 (6ª). Em todos os álbuns Dylan tocou acompanhado pela The Band. Os Beatles lançaram : Help, 1965; Rubber Soul, 1965 (5ª); Revolver, 1966 (3ª); Sgt. Pepper’s, 1967 (1ª). As sementes se espalharam mundo afora. Em Los Angeles, em 1964, uma música de Lennon & McCartney, “A World Without Love”, que foi dada para a dupla Peter & Gordon (acima à esquerda. Peter é irmão da ex-namorada de Paul, Jane Asher),

 chegou ao top 1 e chamou a atenção de Gene Clark, músico folk e poeta, que nesse tempo tocava canções dos Beatles de forma folk e acústica e propôs a Jim McGuinn ( mais tarde trocou o nome para Roger McGuinn. Há poucos anos, ao ser perguntado porque havia mudado o nome, respondeu que não sabia) que se juntassem na proposta de fazer uma banda com sonoridade Beatles e na linha Peter & Gordon, que por sua vez, além de Beatles, se inspiravam em Peter, Paul & Mary que se inspiravam em Dylan (Dylan e Beatles novamente). Essa combinação, mais blue grass e country, e a força da Rickembacker (ouça “I’II Feel a Whole Lot Better” do LP “Mr. Tambourine   Man”) 

- 232ª entre os Top 500  – gravado em 20 de janeiro de 1965, e saberá do que estou falando. Mr. Tambourine Man, do mesmo álbum, doada por Dylan, figura na 79ª posição da mesma lista acima, enquanto que a versão cantada por Dylan, figura apenas na 106ª posição. O Gene Clark disse que buscou alcançar com sua voz um intermediário entre a voz de Lennon e a de Bob Dylan, e com a Rickembacker que Jim passou a utilizar, deram início à fusão do folk com rock e nasceram os Byrds ( acima, à direita, capa do 1º LP, Mr. Tambourine Man, 1965) no final de 1964, uma revoada que se deu no momento em que o rock derrubava fronteiras e seguia ávido por novos campos e experiências. Se há uma banda que sintetiza a influencia de Dylan e Beatles em forma e conteúdo, essa  banda é The Byrds. “Era Dylan encontra The Beatles”, como disse Roger McGuinn certa vez, referindo-se à idéia de como seria Beatles cantando Dylan. Sua formação original é : Jim McGuinn – Rickembacker ; Gene Clark – cantor, compositor, guitarra ; David Crosby – guitarra, vocais ; Chris Hillman baixo e bandolim ; Michael Clark bateria. Muitos consideram que os pioneiros do folk rock tenham sido os Beau Brummels, que faziam parte do cast da Autumn, gravadora criada ainda em 1964 em San Francisco, CAL, com o objetivo de dar (entre outras tentativas) uma resposta aos Beatles no mercado fonográfico norte-americano.

V. Ana Maria Bahiana in Bizz, A História do Rock, vol. 2

Beatles e Dylan se encontram no Delmonico

Posted in Década de 60 on 04/05/2008 by edi cavalcante

por edi cavalcante

Os anos 60 foram o ápice das grandes transformações culturais, sociais, comportamentais, e da opulência econômica que se seguiu ao pós-guerra. A música foi o principal vetor, e essa música era o Rock. Ninguém influenciou tanto uma geração e gerações vindouras como os Beatles, e possivelmente o único que pode rivalizar com eles em influência é Bob Dylan. Poeta, folk, político, um dos precursores da música de protesto, Dylan (nome emprestado de Dylan Thomas. O nome verdadeiro é Robert Zimmerman) rejeitava a imagem de cantor de músicas de protesto, ele preferia chamá-las de canções temáticas. Suas músicas, já no começo da década, inspiravam artistas como Peter, Paul & Mary, The Seekers e Joan Baez. Sua gene artística era ligada a Woody Goothrie, Dylan Thomas, e Beatniks.

A ‘Invasão Britânica’, liderada pelos Beatles, aconteceu em fevereiro de 1964, mas as portas foram abertas em dezembro de 1963, com o lançamento do compacto “I Want to Hold Your Hand”, que vendeu 2 milhões de cópias em uma semana e colocou o mercado fonográfico norte-americano em polvorosa e eletrizou a América pop. Nos primeiros meses de 1964, eles tinham atingido simultaneamente os 5 primeiros lugares das paradas (Bilboard, 4 de março de 1964). Com muito mais disponibilidade técnica que seus primos britânicos, músicos e letristas americanos ouviam incrédulos o espírito livre não-ortodoxo dos Beatles. Essa não ortodoxia foi uma das chaves características dos anos 60. Autodidatas como músicos, Lennon e McCartney, faziam descaso da educação e treinamento musical, porque achavam que isso mataria sua espontaneidade e soariam igual a todo mundo. Nessa atitude eles foram os primeiros, entre os jovens compositores ingleses do período. O trabalho de Jagger e Richards (The Rolling Stones), Ray Davies (The Kinks), Pete Townshend (The Who), Syd Barrett (Pink Floyd) e The Incredible String Band, também foram moldados num elemento cultivado de ‘auto-surpresa’. De fato, cada artista americano, branco ou negro, perguntados sobre I Want To Hold Your Hand, respondia mais ou menos a mesma coisa: ela alterou tudo, anunciando uma nova era e mudando suas vidas (v. Somach and Somach, passim; Dowlding, pp. 60-61). O poeta Allen Guinsberg, surpreendeu seus amigos intelectuais levando-os para dançar prazerosamente ao som de I Want To Hold Your Hand quando da primeira vez que ouviu em um night-club de Nova York.

Quando chegaram aos EUA em 1964, os Beatles acharam incrível descobrir o quanto os jovens norte-americanos estavam “por fora” (“unhip”). A geração que cresceu com cabelo escovinha, aparelho de dentes, ‘hot rods’ e Coca-Cola, não sabia nada de blues ou rithym & blues e tinham esquecido o rock’n’roll que havia excitado seus irmãos mais velhos não havia passado 5 anos. Nesse contexto, uma das mais poderosas correntes que animaram os anos 60 foi a emancipação dos negros. O impacto mais imediato disso na cultura branca foi através da música, começando pelos discos de blues, rock’n’roll e R&B, que entraram em Liverpool via lojas de produtos importados, que inspiraram os Beatles. A influência sobre eles de cantores negros, instrumentistas, compositores e produtores, foram, como nunca negaram em suas entrevistas, fundamentais para o início de suas carreiras. Revivendo o R&B dos 50 na primeira metade dos 60 com versões cover de discos de Chuck Berry, Little Richards, Larry Williams e The Isley Brothers, “os Beatles atuaram como os maiores condutores da energia negra, cujo estilo e sentimento dentro da cultura branca, ajudaram a restaurar uma revolução ‘permissiva’ em atitudes sexuais. Ainda que no começo faziam covers dos artistas da Motown, eles superaram em muito seus rivais em invenção melódica e harmônica, com suas imprevisíveis seqüências de acordes” (Ian MacDonald, Revolution in the Head).

Em agosto de 1964, o único hotel que os acolheu foi o Delmonico, porque na visita de janeiro do mesmo ano (Plaza Hotel), foi impossível controlar os distúrbios causados por um número incalculável de fãs, e nenhum hotel queria correr o risco de ser depredado. E foi lá que aconteceu o encontro (28 de agosto de1964) que mudaria o cenário do que rolaria na segunda metade dos 60, uma hora depois da apresentação no Forest Hills Tennis Stadium, lotado com uma platéia de 30.000 adolescentes.

Oa Beatles já conheciam Bob Dylan do LP “Freewheelin”, que Paul comprara durante a tour a Paris no mesmo ano. Foi Al Aronowitz, colunista do New York Post e amigo de Bob Dylan quem coordenou o encontro. Lennon havia dito em entrevista a Al que reconhecia em Dylan um “ego igual.” Quando os Beatles passaram por Nova York, Lennon ligou para o Al perguntando por Dylan. Al telefonou para Dylan e combinaram o encontro. “Olhando em retrospecto, eu ainda vejo aquela noite como um dos grandes momentos da minha vida. Na verdade, eu tinha consciência de que estava dando início ao encontro mais frutífero na história da música pop, pelo menos até então. Meu objetivo foi fazer acontecer o que aconteceu, que foi a melhor música de nossa época. Eu fico feliz com a idéia de que eu fui o arquiteto, um participante e o cronista de um momento-chave da história.” E ainda ” Até a vinda do rap, a música pop era largamente derivada daquela noite no Delmonico. Aquele encontro não mudou apenas a música pop, mudou nosso tempo.” Al Aronowitz, nos 40 anos do encontro (v. Encontro entre Bob Dylan e os Beatles faz 40 anos. Alexandre Matias, Ilustrada, Folha de São Paulo, 28 de agosto de 2004).                       

Bob Dylan recusou as champagnes, os vinhos franceses e os estimulantes oferecidos e perguntou se não preferiam algo mais ‘orgânico’. Ele pensou que os Beatles fumavam porque confundiu a linha ‘I can’t hide’(‘não consigo esconder’, parte de I Want To Hold Your Hand), com ‘I get hight’ (estou doidão, chapado). E divertiu-se com o fato de ser o homem que fez os Beatles viajarem ao experimentarem maconha pela primeira vez.

Depois desse encontro*, ficou claro para os integrantes da banda inglesa, que era fundamental investir em letras mais elaboradas, com mais conteúdo, já que investiam mais em sonoridade, e dessa forma somar mais qualidade às suas canções. “I’m a Loser”, escrita em Paris 10 dias antes do famoso encontro, e outras como “No Reply”, “I Don’t Want To Spoil The Party” e “You’ve Got To Hide Your Love Away”, são músicas ‘dylanianas’, e mostram o impacto que as músicas de Dylan tiveram sobre eles. Esse encontro é considerado o ponto de partida para a fase psicodélica dos Beatles.

Mas, para Dylan, a vitalidade musical dos Beatles, estimulou seu retorno ao rock-and-roll que o havia motivado na adolescência, cujo resultado foi “Bringing It All Back Home”, um dos álbuns mais influentes da década. Além do mais, em uma época de experimentações, o mundo folk tornou-se limitado, sufocando-o e categorizando-o como cantor de protesto. Foi um encontro fertilizador em uma escala que se ampliaria para além de qualquer expectativa. As ondas do rock inglês já haviam chegado às costas americanas, retribuindo de certa forma, os blues e os rocks que antes haviam aportado em lugares como Liverpool, por exemplo.

* Quando o telefone tocava, Dylan atendia e dizia : “Aqui é a beatlemania”. E John : “Ficamos queimando fumo, bebendo vinho, conversando sobre rock, dando boas risadas, uma coisa meio surrealista. Era hora de festejar.” (v. The Beatles, A Biografia, Bob Spitz, Larousse)

 

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